As Sessões

Nunca é tarde para amar
por Alex Gonçalves

Nascido na Polônia, mas naturalizado australiano, Ben Lewin enfrentou muitos desafios até se consolidar como diretor. Não apenas no período de transição como advogado recém-formado para estudante de Cinema e TV, mas ao contrair pólio aos seis anos de idade, o que o fez se locomover através de muletas desde então. Há dezoito anos sem rodar um longa-metragem, Ben Lewin retorna ao cinema com uma história que parecia predestinado a contar. Trata-se de um fase específica da vida de Mark O’Brien, jornalista e poeta também acometido de poliomielite.

Mesmo ganhador do Oscar, o documentário em curta-metragem Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien (produzido em 1996) se mostra insuficiente para apresentar ao público esta grande figura real, confinado em uma maca desde a infância devido a imobilidade corporal provocada pela doença e que utiliza diariamente um pulmão de metal para que possa sobreviver.

Em As Sessões, o extraordinário John Hawkes enfrenta o desafio de incorporar Mark, apresentando-se como um homem já habituado com a sua condição. Sempre acompanhado de uma enfermeira domiciliar, Mark é incumbido de desenvolver uma matéria jornalística sobre os relacionamentos sexuais dos deficientes físicos. O dever profissional o faz reavaliar sua própria vida sexual, inexistente. Quase quarentão e virgem, Mark analisa a possibilidade de contratar uma terapeuta sexual, profissional especializada em pacientes como Mark.

Antes de seguir adiante, Mark, religioso, recorre a Brendan (William H. Macy), padre em dúvida com o pedido de aprovação do ato sexual fora de um casamento, uma vez que os sentimentos sinceros de Mark por outras mulheres jamais foram correspondidos. Com a benção do padre Brendan, Mark contata Cheryl (Helen Hunt), que no primeiro encontro diz que somente outros cinco acontecerão, quantidade que sempre estabeleceu como necessária para chegar aos resultados pretendidos. Também deixa clara a distinção entre a sua profissão com a de uma prostituta, pois Cheryl é capaz de compreender imediatamente os tormentos internos de Mark ao dividirem uma cama, algo evidenciado diante de suas declarações registradas em um gravador.

As Sessões lida com ao menos dois temas tabu de forma singular. As limitações físicas de Mark, o primeiro tema tabu, não servem como meros artifícios para um filme de superação lacrimoso. Por mais desconfortável seja vê-lo imóvel, o que prevalece é justamente o seu espírito livre, eliminando a presença de uma atmosfera claustrofóbica em detrimento de uma narrativa que flui com humor e leveza. Já o segundo tema tabu, o sexo, é encenado com toda a beleza que se forma entre dois indivíduos em plena sintonia – neste sentido, é impossível não dar créditos ao corajoso trabalho de Helen Hunt, que não impede a naturalidade com que a sua nudez é explorada.

Portanto, temos em As Sessões a apresentação de dois pontos de vista diante de uma mesma história. Em um ponto de vista, temos um homem que passa a conhecer o amor quando julgava ser tarde demais. Em outro, há uma mulher (e modelo real de heroína) que apresenta a um homem maduro este sentimento inerente ao ser humano.

As Sessões
The Sessions
Estados Unidos – 2012
Direção: Ben Lewin