Barbara
por Alexandre Landucci

Estamos em 1980, quando a Guerra Fria tomava de assalto às preocupações do mundo. Christian Petzold cria em Barbara uma narrativa perfeitamente condizente com a percepção ocidental da vida cotidiana nos países comunistas durante esse período: seca, direta, com a sensação de falta de oportunidades e objetivos maiores na vida, sem espaço para o melodrama. E tudo isso mesmo narrando uma historia de sacrifício pessoal.

A Barbara do título é a médica interpretada por Nina Hoss, que vem transferida de Berlim oriental para uma clínica perdida em uma cidadezinha interiorana, cercada de bosques, estradinhas de terra e condomínios simples. Sua transferência parece ter sido por motivos políticos, e o filme deixa a entender que Nina fez de fato algo muito sério, já que é vitima de freqüentes visitas da polícia do partido que não tem pudores em interrogá-la e até mesmo revista-la de forma indecorosa.

O filme – no cerne – é um conto moral sobre uma mulher que vê se sua vida paralisada quando é atirada a contra gosto nesse hospital de segunda categoria, cercada (na visão dela) por colaboradores acéfalos do partido que não conseguem (novamente, segundo a personagem) perceber os muitos problemas do governo de seu país. O conflito – e sua eventual transformação – surge quando ela se apega emocionalmente aos pequenos casos que sua vida de médica exige e começa a ver outras possibilidades de viver naquela rotina afastada do grande centro.

Ela se solidariza com o rapaz que sofre de um distúrbio mental, com a garota que foge constantemente de uma instituição policial, com seus companheiros médicos, ao mesmo tempo em que recebe visitas constantes de um amor que vive na Alemanha Ocidental e que pretende arranjar uma fuga para a médica.

Petzold é bastante feliz ao fazer de sua narrativa claustrofóbica, já que Barbara vive se sentindo perseguida e aprisionada e isso transparece na tela. Assim como a médica não confia nas pessoas ao seu redor, enxergando-os como espiões, o filme nos passa essa impressão o que fortalece as mudanças que a personagem sofre quando começa a enxergar aquele lugarejo não como uma prisão disfarçada, mas como uma chance muito boa de recomeçar, longe dos perigos que a afligiam ou de um relacionamento que parece claramente destinado a dar muito errado.

A interpretação de Nina Hoss é fundamental para que o conto moral não caia no melodrama, principalmente quando as historias da médica e da garota Stella (a tal fujona) se interligam, mesmo com diversas chances para que isso aconteça. Ronald Zehrfeld que vive o médico André serve de contraponto a figura assustada de Bárbara e é por ele que o espectador consegue compreender as diferentes formas de lidar com um regime político tão complicado como o enfrentado pelos alemães orientais. Enquanto Bárbara revolta-se e planeja uma fuga, André prefere ficar e – mesmo não concordando com tudo o que lhe é ensinado – ajudar os necessitados, fazendo jus à posição de médico.

Bárbara não chega a ser uma produção de grande destaque, principalmente em um começo de ano (falando do mercado brasileiro) que trouxe alguns filmes muito especiais – na minha forma de ver. Mas, não deixa de ser um conto de moralidade interessante, que prende a atenção ao apostar na fórmula da claustrofobia, mesmo com aquela liçãozinha de moral no ato final que prefere render seus personagens ao “final feliz”, do que ousar em uma discussão política mais agressiva.

Barbara
Barbara
Alemanha – 2012
Direção: Christian Petzold