Amor

por Edson Burg

No microcosmo de Amor, qualquer indivíduo dentro do apartamento de Georges e Anne é um intruso – seja a própria filha, desconforto acentuado pela presença do seu pouco amigável marido, ou os prestativos vizinhos, que mal têm tempo de entregarem as compras e desejarem felicidade ao casal antes de serem praticamente convidados a se retirar. Por isso, quando Anne adoece, não é apenas a possível perda que assombra os protagonistas de Amor: eles ainda precisam lidar com interferências externas àquele seu mundo. A do próprio espectador, inclusive.

De certo modo, o definhar de Anne passeia rapidamente pelos olhos do público. Se em uma manhã ela praticamente apaga durante o café, paralisada mesmo com os estímulos de Georges, na cena seguinte a senhora já surge de cadeira de rodas, para pouco depois depender dos cuidados do marido ou de uma enfermeira para gestos simples, como tomar banho. Cada cena promove um reencontro da personagem com o espectador que, envolvido naquele jogo (desde o começo sabemos qual será o destino de Anne), teme por uma nova aparição da frágil protagonista.

Noutro ponto, Georges se mantém como um vigilante daquele mundo particular dele e de sua esposa. A teimosia em mantê-la sob cuidados no apartamento, a resistência em deixar a própria filha ter contato com a mãe e a irritabilidade com que trata uma enfermeira ao dispensar seus serviços são sintomas da frieza e do desespero de idoso em tentar a manutenção da rotina do casal, mesmo quando o cotidiano se distancia cada vez mais da tranquilidade de outrora.

Passividade encerrada bruscamente quando Georges estapeia a mulher, num momento inesperado e que mostra pela primeira e única vez a agitação interior sentida pelo protagonista. A partir dali, quando Georges revela para Anne (e para o público intruso) sua fraqueza, a maneira com que encerra o carma não chega a ser tão surpreendente – é sintoma de quem não sabe lidar com a perda e decide abreviar a dor.

Michael Haneke comumente é descrito com um diretor pessimista, pouco emotivo e repetitivo em sua descrença acerca das relações humanas. Amor parece um ponto de virada da sua filmografia: mesmo com a iminente morte de Anne e a aversão de Georges a quem interfere nas suas vidas, é o sentimento já destacado no título que permeia o filme. O apartamento de Anne e Georges é o espaço onde o casal decidiu passar seus derradeiros anos, e quando a inevitável morte finalmente aparece, eles tentam a todo custo se manterem naquele local. Só eles, nem mesmo os pombos, têm direito a permanecer ali.

Por isso, a história de Amor termina justamente no começo do longa-metragem: os bombeiros precisam arrebentar as portas e efetivamente invadir o apartamento. Mas agora eles têm permissão, afinal quem ali vivia cumpriu o desejo de terminar seu ciclo naquele microcosmo.

Amor
Amour
França – 2012
Direção: Michael Haneke