RANKING ANOS 2000
(1-20)

Cidade dos Sonhos 2

1
Cidade dos Sonhos
Mullholland Drive, 2001
David Lynch
540 pontos
23 votos
6 poles

“Assim como Twin Peaks, Cidade dos Sonhos foi inicialmente concebido para ser uma série de tv. Porém, mais uma vez os executivos do estúdio não compraram a idéia. Por isso que o filme tem aquele gostinho de Twin Peaks, cheio de personagens que confundem e complicam o enredo. O fato de o filme ter sido finalizado com dinheiro francês e de ter sua estória completada de maneira totalmente diferente do que havia sido planejado por Lynch só aumentou a minha admiração pelo genial cineasta, que de uma obra inacabada conseguiu fazer a sua obra-prima máxima. A culpa e o mistério, a ênfase nos objetos (chaves, telefones, caixas, cortinas) continuam presentes como marca, mas, diferente de John Merrick (O Homem Elefante) e Laura Palmer (Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer), aqui a protagonista não encontra redenção. A fuga através de um sonho e do auto-esquecimento só funciona até certo momento e logo a verdade vem à tona. Nesse ínterim, somos mergulhados numa atmosfera de sonho e mistérios – alguns deles insolúveis -, numa dimensão ao mesmo tempo assustadora e erótica, romântica e trágica. No final, uma mulher estranha, de cabelos azuis (sendo o azul, sempre a cor do mistério nos filmes de Lynch), pede algo que pode ser encarado, entre outras coisas, como um pedido de respeito à obra: silêncio”(Ailton Monteiro, Diário de um Cinéfilo)

Elefante

2
Elefante *
Elephant, 2003
Gus Van Sant
486 pontos
21 votos
2 poles

“Em Elefante, Gus Van Sant filma a adolescência com o espanto de quem se descobre diante de um mistério. O massacre de Columbine inspirou inúmeras análises sobre o comportamento da juventude norte-americana. Para Van Sant, não há o que explicar. Os atores desse drama nunca se deixarão revelar completamente. Em vez de simplificar, o cineasta dificulta: com uma câmera colada aos personagens, ele os acompanha como quem não quer nada, em corredores de cólegio e atividades do cotidiano. Com os meninos e meninas, caminha silenciosamente de encontro a uma tragédia, filmada com crueza quase insuportável. Difícil sobreviver à seqüência final. Até lá, o cineasta permitirá ao espectador uma experiência mais impactante: o convívio com uma juventude não mais reduzida a estereótipos, tratada com a complexidade que faz por merecer” (Tiago Superoito, Meu Nome Não é Superoito).

Antes do Pôr do Sol

3
Antes do Pôr-do-Sol
Before Sunset, 2003
Richard Linklater
389 pontos
16 votos
1 pole

“Um homem, uma mulher, nove anos depois. Será que poderíamos resumir assim o reencontro entre Celine e Jesse? O casal que se encontrou e desencontrou numa fascinante noite em Viena d’Áustria se reúne novamente em Paris, dessa vez em plena luz do dia. Filmado em longos planos-seqüência, o novo filme deixa de lado o tom onírico que marcou o primeiro filme e cede lugar à experiência acumulada por ambos antes do reencontro. A sensação que temos é que a dupla vai criando o texto no improviso da mesma forma que fazemos, na vida real, ao nos depararmos com um antigo amor. Da troca de olhares inicial na lendária Shakespeare and Company até a seqüência final no apartamento de Celine, a impressão é que tudo pode acontecer. E, se tudo pode acontecer, por que não acreditar que eles finalmente ficarão juntos? Eu acredito…” (Guilherme Lamenha, Perto do Coração Selvagem).

Marcas da Violência

4
Marcas da Violência *
A History of Violence, 2005
David Cronenberg
386 pontos
19 votos
1 pole

“Aparentemente, uma mudança de rumo na filmografia do rei do horror venéreo: nada de metamorfoses corporais, nada de psicoses criando outras realidades. Para além de toda forçação de barra possível, esses temas estão lá, discretos, adormecidos, para serem apreciados depois de sair do cinema. Marcas da Violênica é um dos melhores filmes do diretor, prova de seu talento na construção de personagens, situações e imagens poderosas. Uma delas: nosso herói, exausto pelos dias sem sono, pela estrada até Filadélfia, pela carnificina com a qual foi obrigado conviver de novo e, por fim, pelo peso de ter matado o próprio irmão, vai se lavar à beira do lago da mansão, jogando a arma em suas águas. Nesse momento o filme assume uma dimensão trágica difícil de ser imaginada até então e mesmo a cenografia nouveau riche à beira do lago não deixa de invocar, à meia-luz da aurora de um novo dia, um cenário de tragédia grega. Junto à introdução do filme, à cena do tiroteio no café e à cena do jantar ao final, a prova definitiva de um cineasta no ápice do controle de sua técnica” (Milton do Prado, O Olho de Hochelaga).

Vol. 1

5
Kill Bill: Vol. 1 *
Kill Bill: Vol. 1, 2003
Quentin Tarantino
367 pontos
18 votos
sem poles

“Tarantino eleva ao extremo aquilo que em Pulp Fiction ele redefiniu: a violência usada como entretenimento, tendo o real desvinculado de si mesmo para servir apenas como suporte da estética do ‘cool’, do visualmente bacana e intelectualmente bem sacado. Se Cães de Aluguel e Jackie Brown são habitados por personagens que podemos acreditar que existem fora da tela, Kill Bill está um passo além de Pulp Fiction: se neste John Travolta e Samuel L. Jackson saíram de tramas policiais baratas, ‘A Noiva’ de Uma Thurman e seus adversários saltam diretamente de animês e filmes de luta japoneses, trazendo junto seus universos antigravitacionais, povoados por corpos facilmente decapitáveis e que literalmente esguicham sangue. É uma violência estilizada e absurda, que coloca o espectador a uma distância adequada. E mesmo se você não reconhecer as inúmeras referências e homenagens, dá para ver que toda essa miscelânea foi feita por alguém que é apaixonado por cinema” (Renato Silveira, Cinematório).

Amantes Constantes

6
Amantes Constantes *
Les Amants Réguliers, 2005
Philippe Garrel
301 pontos
14 votos
1 pole

“Se dependesse apenas das cenas de combate entre os estudantes e a polícia francesa, Amantes Constantes já seria inesquecível e daria a perguntar por que Philippe Garrel, com uma filmografia consistente atrás de si, esteve até então inédito em nossas telas. Pela fotografia arrebatadora, os planos grandiosos a revelar a beleza e a ingenuidade das guerrilhas de universitários, em que os ‘soldados’ se dividem entre os que incendeiam carros e os que se beijam antes do próximo ataque de pedras na mão. Ou antes da polícia colocar todo mundo para correr por uma Paris em preto-e-branco que vivia o agora. E aí está o porquê de Amantes Constantes ir além da composição desta seqüência inspirada. Porque apresenta os restos de 1968, que chegaram aos meses posteriores aos revolucionários. Não são cacos, esses restos, mas instantes feitos de um tempo parado, uma ressaca de indefinição e letargia. A passagem da embriaguez existencial de 68 para o desconforto passivo de 69, ilustrada por uma música do Kinks, “This Time Tomorrow”, no frenesi de uma festa, é outro presente de um filme de muitos” (Alexandre Carvalho, Na Minha Rolleiflex).

Sobre Meninos e Lobos

7
Sobre Meninos e Lobos **
Mystic River, 2003
Clint Eastwood
284 pontos
15 votos
sem poles

“Filme simples na sua forma de narrar, em que toda a intensidade e complexidade surge a partir do posicionamento dos personagens dentro do espaço coberto pela câmera, da luz que insiste em escurecer rostos e corpos, do desenvolvimento dramático crescente em que o ápice não é o fim, mas o começo. Clint Eastwood faz aqui um atestado dos mais contundentes acerca da violência na sociedade burguesa, um verdadeiro acontecimento cinematográfico em que o classicismo torna-se modernidade na medida em que o diretor se coloca como observador dos fatos, e jamais como juiz ou árbitro. Naquele trio de amigos de infância reside uma tragédia humana que reflete muito do que é ser, essencialmente, um ser vivo, pensante e sujeito às circunstâncias mais dolorosas e angustiantes” (Marcelo Miranda, Impressões Cinéfilas).

Caché

8
Caché *
Caché, 2005
Michael Haneke
282 pontos
14 votos
2 poles

“Instigante. Misteriosas fitas desestabilizando uma família que parecia sólida e feliz. Inteligente. Um filme de metáforas retratando não só ocasal, como a própria França e seus medos escondidos que diariamente tornam-se mais vivos. Intrigante. O meticuloso filme de Haneke causa um mal estar no estômago desde o primeiro instante, a mistura de suspense e drama guarda em suas entrelinhas uma história de xenofobia, e um leve fio de esperança que o cineasta prefere esconder dentro de seu estilo incomodo e desagregador. Perspicaz. Uma obra enriquecedora capaz de abranger tantos dramas da vida contemporânea em minuciosos e pertinentes detalhes. E deixa perguntas (quando na verdade implicitamente oferece suas respostas) para temas urgentes escondidos numa sociedade que crê ser estável” (Michel Simões, Toca do Cinéfilo).

Amor à Flor da Pele

9
Amor à Flor da Pele
Fa Yeung Nin Wa, 2000
Wong Kar-Wai
280 pontos
14 votos
sem poles

“Com Amor à Flor da Pele, o cineasta Wong Kar-Wai estabelece uma nova maneira de fazer cinema, onde a expressividade das cores e sons, acompanhado de seu modo ímpar de captar cenas e seqüências, cria a atmosfera inebriante de um romance bastante tradicional elevado a um patamar poucas vezes alcançado. A predileção pelos fades, pelo ‘slow motion’ e pela câmera que abandona seus personagens para registrar somente o imprescindível, traduzem o que de fato se busca: a sugestão. A partir disso, o que se vê é alguém registrando seu nome na história ao criar um manifesto de paixão à sétima arte, o verdadeiro poema filmado, cujas imagens, de tão belas que surgem na tela, custam a sair da cabeça” (Hudson Dalbem, Epílogo).

Encontros e Desencontros

10
Encontros e Desencontros **
Lost in Translation, 2003
Sofia Coppola
267 pontos
12 votos
1 pole

“Me parece meio que uma versão filmada de um bom disco do My Bloody Valentine – e não à toa Sofia Coppola chamou Kevin Shields, guitarrista da banda, para fazer a trilha sonora (e aí nos entregou a linda City Girl): é introspectivo, de ritmo lento e com uma atmosfera acolhedora, mágica mesmo (pronto, é o Loveless). Impressiona também como Coppola consegue aproveitar toda a fotogenia de Tóquio, cidade que acaba virando personagem, embalando em melancolia essa história de amor das mais puras e singelas. Há um grande número de seqüencias memoráveis (a cena do karaokê ou a sequencia ao som de Sometimes, do My Bloody Valentine, por exemplo), mas certamente a que mais merece destaque é aquela do final, já clássica, com Just Like Honey e um sussurro que diz muito, encerrando com perfeição este que é um dos grandes filmes dos anos 2000″ (Rodrigo Pierre, ToLtal Trash).

Sangue Negro

11
Sangue Negro
There Will Be Blood, 2007
Paul Thomas Anderson
250 pontos
10 votos
1 pole

“Numa trajetória cinematográfica relativamente curta, PT Anderson fez um dos melhores e mais sombrios filmes deste início de século, tão repleto de incertezas como os 10 minutos iniciais de silêncio e suspense em que o diretor mergulha num poço escuro seu personagem Daniel Plainview e todos nós, espectadores. Plainview tem uma alma tão dura e escura quanto o solo onde ele vislumbra o ouro negro. Sangue Negro orquestra uma sucessão de surpresas, cuja grandiosidade nos leva a pensar no maestro que está por trás de tudo aquilo. Além das atuações brilhantes de Day-Lewis e Paul Dano, da direção e do roteiro, a fotografia, em que a luz solar refletida na paisagem contrasta com a sombra dos operários do petróleo em trabalho, e a trilha sonora de Jonny Greenwood, extremamente perturbadora e eficiente, evidenciam a ambição de um cinema inteligente e de forte impacto, repleto de sensações e quase inenarrável pelo espectador” (Eduardo Miranda, Mira!).

Não Estou Lá

12
Não Estou Lá
I’m Not There, 2007
Todd Haynes
240 pontos
11 votos
1 pole

Não Estou Lá é o tipo de obra que se impõe de um modo muito particular. Poderia ser simplesmente por tratar da vida de um dos maiores mitos do século XX, Bob Dylan, mas é muito mais do que isso. Apesar das inúmeras referencias a Dylan, incluindo aí o uso em quase todas as cenas de alguma música de sua autoria, em todos momentos Haynes se abre a novas reflexões, criando um filme sobre a humanidade em geral, sobre as várias faces de uma pessoa em constante mutação, e em conflito com si. É mais um filme sobre o autor do estudo do que sobre o objeto. A direção transforma idéias mirabolantes em planos geniais, e a montagem faz estes planos se completarem de tal maneira que poucas vezes se viu no cinema. Resumindo em uma única frase: É o tipo de filme que eu quero fazer quando crescer” (Mateus Nagime, Cinema Mon Amour).

Um Filme Falado

13
Um Filme Falado *
Um Filme Falado, 2003
Manoel de Oliveira
236 pontos
11 votos
1 pole

“Mãe e filha partem de Lisboa em um cruzeiro rumo a Bombaim. Ao atravessar o oceano, a mãe – que é professora de história – espera visitar os lugares (França, Itália, Grécia, Egito, Turquia e Iêmen) que conhece na teoria. À medida que vai respondendo às perguntas da filha, ela dá uma aula sobre as grandes civilizações. Em cada parada, novas histórias, novos hóspedes e mais descobertas sobre a natureza humana. Manoel de Oliveira faz um filme grandioso, sem um senão sequer. Texto primoroso, imagens belíssimas, elenco internacional afiado – com destaque para Leonor Silveira e a pequena Filipa de Almeida – e um final de cair o queixo” (Demas, Cine Dema(i)s).

O Novo Mundo

14
O Novo Mundo **
The New World, 2005
Terrence Malick
227 pontos
11 votos
1 pole

“Descobrir um novo mundo no cinema parecia tarefa impossível neste novo milênio. Era como se tudo já tivesse sido mostrado, de todas as formas e conteúdos imagináveis. Até você abrir os olhos para O Novo Mundo. A maior proeza, dentre as várias alcançadas por Malick, é justamente a de nos permitir um olhar virgem diante de tudo que achávamos incapaz de surpreender, de parecer novo, original e belo. A natureza na América, a realeza na Europa, os olhos de cá para lá e de lá para cá. Tudo tão inédito que até dói. Dói nos olhos, nos ouvidos, na mente, no coração. Dói porque nos leva à imersão, nos fazendo esquecer que estamos diante de um filme. E então não nos vemos mais diante, mas dentro; dentro de um novo mundo, com todos os desdobramentos e contradições e intolerâncias e mais todas as nossas emoções represadas vazando por frestas de nós mesmos como feridas abertas. Ou como epifanias inesperadas e, ao mesmo tempo, tão aguardadas” (William Wilson, MegaZona).

Reis e Rainha

15
Reis e Rainha
Rois et Reine, 2004
Arnaud Desplechin
212 pontos
10 votos
1 pole

“Um filme com 150 minutos, feito em cinemascope e com traços que emulam caracteristícas da nouvelle vague. Arnaud Desplechin poderia ter feito um trabalho inflado e desajeitado, mas o que vemos em Reis e Rainha é um trabalho leve, que parece flutuar. É um épico familiar, com momentos dramáticos extremamente amargos (a carta do pai), mas possuindo um lado cômico que não é mero alívio, pois se encaixa com perfeita naturalidade dentro da trama, e a atuação de Mathieu Almaric, fenomenal, certamente contribui para isso. O elenco, aliás, tem uma força enorme e Desplechin parece deixar seus atores bem livres para atuar (além de Almaric, Emmanuele Devos também está sensacional). O grande filme da década até agora” (Paulo Eduardo, Loged).

Embriagado de Amor

16
Embriagado de Amor
Punch-Drunk Love, 2002
Paul Thomas Anderson
202 pontos
9 votos
2 poles

“Um acidente na estrada, e surge na rua um órgão parecido com um piano. Barry Egan se aproxima daquele instrumento, olha para ele no meio da rua, o segura e leva correndo desesperadamente para seu escritório. Tão subitamente quanto esse piano surge no começo do filme, surge na vida de Barry o amor de sua vida, encarnado aqui pela bela Emily Watson. É esse amor que transformará Barry – e nem suas irmãs ou um telefonema mal sucedido para o tele-sexo farão esse protagonista desistir do amor. Aos poucos, ele começa a entender o seu piano, e a compreender melhor como lidar com sua Emily Watson. Na cena final, Barry Egan já toca seu piano conforme a trilha sonora do filme, Emily Watson chega, abraça Barry e “so here we go”. Embriagado de Amor é uma obra que tenta resumir o amor. Um algo inexplicável, assim como o porquê do terno azul que Barry Egan veste o filme inteiro” (Christopher Faust, Christophilmes).

A Última Noite

17
A Última Noite *
The 25th Hour, 2002
Spike Lee
201 pontos
9 votos
1 pole

“Há quem diga que este é seu melhor filme, por mais irônico que seja, também é um dos seus filmes “brancos”. A Ultima Noite retrata uma pungente ressaca do pós-11 de Setembro de maneira muito intimista. Nesta adaptação do romance de David Benioff, Monty (Edward Norton) salva um cão dos escombros e este ponto o faz repensar sua vida de traficante para máfia russa. Exatamente no dia que resolve deixar “seu negócio”, é capturado pela polícia sob forte indício de ter sido entregue por alguém muito próximo. Nestes momentos o filme ganha peso: sua desconfiança de quem possa tê-lo entregue e suas últimas 24 horas de liberdade para curtir com os amigos. Além da belissima trilha de Terence Blanchard, há pelo menos três momentos memoráveis no filme, como suas acusações em tom de desabafo frente ao espelho; quando pede para os melhores amigos que ganhe hematomas no rosto para impor respeito aos outros detentos e a despedida de sua mulher no hall de sua casa: – a mulher cuidando de suas feridas, o pai esperando no batente da porta com as bagagens, tudo é tão crível como desesperador no cerco do tempo que acaba. Aqui percebe-se que Spike Lee soube transportar pro cinema e criar uma béla mise-en-cene do choro mais humilde norte americano, mais precisamente nova-iorquino” (Vebis Jr., Mentiras e Verdades).

Dogville

18
Dogville *
Dogville, 2003
Lars Von Trier
198 pontos
9 votos
1 pole

“À época do lançamento, as críticas sobre Dogville deslumbravam-se com seu libelo anti-americano e com a polêmica fomentada por um Lars Von Trier que espumava pela boca ao falar do país que ele, orgulhosamente, nunca visitou. Cinco anos e uma nova (e fracassada) administração Bush depois, o suposto anti-americanismo da produção já não impressiona ninguém. Dogville não existe mesmo para chutar cachorros mortos. Muito mais um tour de force estético sobre o papel de um diretor de cinema do que um panfleto anti-Bush, a obra-prima de Von Trier ainda revela camadas a cada vez que é revisitada e descortina ao mundo parte da personalidade egocêntrica do dinamarquês. A ausência de cenários põe a suspensão da descrença em cheque, mas a força divina do diretor – sacramentada mais adiante, em As Cinco Obstruções – faz todo mundo acreditar, por 3 horas, em portas e paredes invisíveis. Dogville, visto hoje, é muito mais um filme sobre Lars Von Trier do que qualquer outra coisa. É arrogante e prepotente, mas também é genial. Nicole Kidman que o diga (Diego Maia, Egolog)”.

Fale com Ela

19
Fale com Ela
Hable com Ella, 2002
Pedro Almodóvar
180 pontos
9 votos
sem poles

“Fale com Ela é sangue, sexo, lágrimas, violência, superação, morte, e, sobretudo, amor. Para Almodóvar, em um equilíbrio talvez inédito em seu cinema entre o trágico e o cômico, entre o ordinário e o sublime, o amor se tornou mais importante do que o desejo. O amor como a mais bela das patologias. As mulheres, apesar de fortes, são colocadas em coma para que dois homens de sensibilidade quase feminina tomem conta do drama. E os personagens se abrem para um entendimento mais amplo de seus comportamentos. Benigno transa com sua paciente em coma e a conseqüente gravidez a faz sair do estado vegetal; e Marco, o verdadeiro protagonista do longa, aprende a amar desesperadamente. Um filme do tamanho do mundo” (Julio Bezerra, Cinekinos).

Onde os Fracos Não Têm Vez

20
Onde os Fracos Não Têm Vez
No Country for Old Men, 2007
Joel e Ethan Coen
174 pontos
9 votos
sem poles

“No deserto americano, outrora terra de caubóis, corpos e uma mala com muito dinheiro. Um caçador, veterano do Vietnã, que a encontra. Um assassino cruel, um demônio de preto e olhar vazio, tal qual o Mammon bíblico, que o persegue implacavelmente em um embate dos mais tensos e eletrizantes. E um perplexo xerife que segue no encalço dos dois, mas que se vê impotente diante de um mundo onde a violência se torna cada vez mais banal e sem sentido. No meio deles, muitos cadáveres. Linha por linha, o enxuto romance de Cormac McCarthy é transposto com limpidez e minimalismo pelos irmãos Coen, que, como no magistral Fargo, cuidaram também de injetar nesta obra-prima seu senso de humor peculiar, mesmo diante das terríveis carnificinas mostradas. Prevalece, porém, neste crepuscular western moderno, um tom pessimista, expresso ao final pelo olhar resignado no enrugado e melancólico rosto do xerife, ao narrar para a esposa um enigmático sonho interrompido, prenúncio de que tempos ainda mais sombrios estão por vir. Um mundo onde tudo tende a piorar, sem dúvida; menos o cinema dos Coen. Estes, aqui mais geniais do que nunca” (David Medeiros, Blog of Snobs).

* filmes que concorreram ao Alfred de melhor filme
** filmes que ganharam o Alfred de melhor filme