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Curadoria de Filipe Furtado & Chico Fireman
Artes de Rafael Canoba, Organização de Mauricio Ribeiro

Eduardo Coutinho tinha exatos 80 anos quando deixou o Brasil órfão de seu maior documentarista, de um de seus grandes cineastas. Poucos diretores de cinema conseguiram humanizaram tanto seus “personagens” quanto o entrevistador que não parecia entrevistador. Os depoimentos que colhia pareciam frutos das conversas de grandes amigos. Refinou tanto seu talento que, em 2007, resolveu subverter sua própria lógica de cinema e lançou um delicado e poderoso ensaio sobre a representação em JOGO DE CENA. Radicalizou mais ainda em MOSCOU e UM DIA NA VIDA. Eduardo Coutinho estava no auge de seu potencial criativo quando foi protagonista de uma tragédia. Para homenagear alguém que merece como poucos o título de “mestre”, a Liga dos Blogues Cinematográficos resolveu vasculhar toda sua filmografia, além de passear sobre alguns dos filmes mais importantes do gênero de cinema que ele ajudou a sedimentar, o documentário.


Inconscientemente nosso gênio documentarista entregou sua obra última como um afago no povo que sempre admirou, respeitou e, de certa forma, dissecou. Pegando como ponto de partida uma das cenas-chaves do clássico EDIFÍCIO MASTER (a do morador que entoa ‘My Way’ embargado de emoção), Coutinho pediu a seus entrevistados para que soltassem alma, coração e também dessa vez, voz. O povo então abraçou o mestre como nunca tinha feito e, no mais popular de seus trabalhos, cantou para seus males espantar. O mestre mais uma vez estava certo.
Francisco Carbone



Coutinho dizia não fazer filmes políticos, mas que podiam se tornar políticos de outra forma. PEÕES é aparentemente político em todo canto, mas prefere olhar nos olhos de anônimos grevistas sem nunca julgá-los. Chega a um desfecho brilhante, com Geraldo que, após longo silêncio questiona aquele que tem o poder do filme: “O senhor já foi peão?” Há mais política nesta pergunta que em muito cinema exibido por aí.
Fabricio Cordeiro



Coutinho não precisa de muito, com sua fala mansa dá o tom e a liberdade para entrevistados se expressarem e representar a pluralidade desse país. Pessoas simples narrando histórias de violência. Um pequeno retrato da vida cotidiana, da pobreza e migração ao preconceito e sonhos reprimidos por uma percepção concreta das próprias limitações. A proximidade do tráfico, Coutinho tira um raio-x da favela, límpido.
Michel Simões



Quando o símbolo máximo da macroestrutura religiosa aterrissou no Brasil, Eduardo Coutinho fez o que fazia melhor: direcionou o seu olhar para o micro, e com o uso da câmera, direcionou também o nosso. Coutinho mostra que a instituição pouco diz da fé, e acha no sincretismo brasileiro uma riqueza enorme de material, experiências espirituais, relatos. Para acreditar em SANTO FORTE você não precisa, porém, de acreditar em nada além da maravilha que é o ser humano, em todas as suas nuances.
Ana Clara Matta



Um painel do que se exibe nos canais abertos da televisão brasileira. 19 horas de programação picotadas e condensadas em 90 minutos de filme. Com este filme-colagem, Coutinho não só nos mobiliza a pensar quais imagens vemos todos os dias na TV, mas como elas são ressignificadas quando projetadas na sala de cinema. Seria mesmo um filme ou só um “troço”, como o próprio Coutinho definiu? Qual o limite de um filme?
Camila Vieira



“O sertão é do tamanho do mundo”, leu Coutinho numa das páginas de Grande Sertão: Veredas, a caminho da Paraíba, na iminência de começar um novo filme. Sem roteiro, equipe mínima, aberto ao acaso: eis “O Fim e o Princípio”, um filme de aventura no sertão paraibano. Entre encontros inesperados, histórias inventadas e verdades partilhadas, um homem diz: “Só existe o que aconteceu. O que não aconteceu não existe, não.”
Samuel Lobo



BOCA DE LIXO pode ser o que melhor sintetiza o Cinema de Eduardo Coutinho e sua forma de dirigir, onde com muito sucesso fez com que pessoas tão agredidas pela vida pudessem expressar as suas vozes sem serem estereotipadas. Coutinho conseguiu ganhar a confiança dessas pessoas, sendo recompensado por seus relatos por vezes repletos de orgulho, que surpreendem e humanizam elas mesmas e os espectadores.
Marcelo Rennó



Dentro do que é praticamente um gênero dentro da obra de Coutinho, os “filmes de conversa”, EDIFÍCIO MASTER é o mais abrangente deles. Tem nome de prédio, mas você não vê o prédio. Fala sobre a vida em Copacabana, mas Copabacana não aparece. Ele se interessa não no que está do lado de fora, mas nas histórias contidas nos apartamentos, como sugere o plano voyeurístico à la JANELA INDISCRETA: cada vida ali dá um filme.
Renato Silveira



CABRA MARCADO PARA MORRER é uma potente reflexão sobre os anos da ditadura militar. Mas, ao focar sua narrativa nas histórias de camponeses que tiveram suas vidas modificadas pelo golpe de 64, Eduardo Coutinho anuncia seu cinema vindouro, feito de uma inigualável capacidade de ouvir o outro. São essas pequenas histórias contadas ao diretor que, nesse filme, reconstroem a História brasileira recente.
Wallace Guedes



Verdade: No cinema, que se entenda por mímese, verossimilhança; no ato de se contar uma história, ponto de vista. O real, toca quem vive, quem o vivencia. Assim, ciente de que toda verdade é pessoal e nenhuma se sustenta frente a uma câmera ligada, Coutinho – aquele que abraçou o documentário por não afeição ao truque – dá nova dimensão tanto à sua obra, como à vida. E se coloca entre os maiores de sua arte.
Rodrigo Torres


1 . JOGO DE CENA | Eduardo Coutinho – 9,38
2 . CABRA MARCADO PARA MORRER | Eduardo Coutinho – 9,37
3 . EDIFÍCIO MASTER | Eduardo Coutinho – 9,03
4 . BOCA DE LIXO © | Eduardo Coutinho – 8,18
5 . O FIM E O PRINCÍPIO | Eduardo Coutinho – 8,13
6 . UM DIA NA VIDA | Eduardo Coutinho – 8,08
7 . SANTO FORTE | Eduardo Coutinho – 8,06
8 . SANTA MARTA – DUAS SEMANAS NO MORRO © | Eduardo Coutinho – 7,96
9 . PEÕES | Eduardo Coutinho – 7,92
10 . AS CANÇÕES | Eduardo Coutinho – 7,86
11 . O FIO DA MEMÓRIA | Eduardo Coutinho – 7,60
12 . BABILÔNIA 2000 | Eduardo Coutinho – 7,35
13 . MOSCOU | Eduardo Coutinho – 7,33
14 . A FAMÍLIA DE ELIZABETH TEIXEIRA | Eduardo Coutinho – 7,25
15 . O HOMEM QUE COMPROU O MUNDO | Eduardo Coutinho – 7,21
16 . SOBREVIVENTES DE GALILEIA © | Eduardo Coutinho – 6,89
17 . FAUSTÃO | Eduardo Coutinho – 6,17
*** . PORRADA © | Eduardo Coutinho – 6,25
*** . O JOGO DA VIDA © | Eduardo Coutinho – 7,50
*** . ABC DO AMOR | Eduardo Coutinho, Rodolfo Kuhn & Helvio Soto – 6,00
*** . OS ROMEIROS DE PADRE CÍCERO © | Eduardo Coutinho – 6,00
*** . A LEI E A VIDA © | Eduardo Coutinho – SEM NOTA
*** . VOLTA REDONDA, O MEMORIAL DA GREVE © | Eduardo Coutinho – SEM NOTA



Jean Rouch é provavelmente o documentarista mais importante da história do cinema, ao menos sob uma ótica estética-moral. Como compreender o que é um documento, como encena-lo? No melhor de seus filmes, está a evidência. O êxtase da encenação compartilhada, como outrora disse o crítico Felipe Bragança, exigindo do expectador o mesmo posicionamento crítico que de qualquer ficção. EU, UM NEGRO é um filme essencial a qualquer um que pretenda estudar dramaturgia. Onde a fábula e a realidade encontram um mesmo sentido: A moral.
Guilherme Martins



SHOAH fala sobre o horror: O Holocausto. A sua largueza impregna um ritmo doloroso de falas, sem o uso de imagens de arquivo. São as pessoas que falam e constroem as imagens que criamos mentalmente, em um processo rítmico que protege o espaço da palavra. Não é senão através da palavra e do gesto que Lanzmann estabelece um lugar para as coisas: Para a memória, para a liberdade do espectador, para tudo o que nos afeta.
Pedro Henrique Gomes



Em SEM SOL, Chris Marker nos traz um filme-ensaio por excelência. O meio documentário-meio ficção apresenta ao público extremos do que é considerado civilizado e selvagem em diferentes partes do mundo como Japão e Guiné-Bissau. Aproximando esses extremos, ele também apresenta quebras na linearidade do filme, como que remetendo a não linearidade da própria memória que consolida o “moderno” e o “atrasado” e reverberando essas relações no fazer fílmico, também este um recorte que apenas dá a impressão de continuidade. Se logo no início do filme a narração destaca que a grande questão do Século XX foi a coexistência de diferentes conceitos de tempo, Marker parece trabalhar essa coexistência no plano audiovisual, dando ao público um filme que propõe mais perguntas que respostas.
Susy Freitas



Comércio, mentira e legitimidade da arte e crítica em espiral que coloca em primeira instância o próprio filme como principal suspeito. Através do uso da ironia como eixo principal ao suposto desencontro na montagem, Orson Welles faz ode à ilusão que encanta e também emprega gênios e farsantes – dependendo do ponto de vista, é claro.
Pedro Tavares



Lá no final dos anos 1920, o cinema busca sua identidade. O Homem da Câmera pode ser considerado o filme mais marcante desse processo, um dos primeiros e mais felizes experimentos do cinema sobre sua própria linguagem, tendo como alvo de observação a própria vida social. O olho-câmera enxerga o mundo ao redor (nos enxerga?), multiforme e sem rédeas, e assim a poética cinematográfica explode, em potencialidades e luz.
Rafael Carvalho



1 . O HOMEM DA CÂMERA | Dziga Vertov – 9,31
2 . VERDADES E MENTIRAS | Orson Welles – 9,20
3 . SEM SOL | Chris Marker – 9,11
4 . SHOAH | Claude Lanzmann – 8,90
5 . EU, UM NEGRO | Jean Rouch – 8,75
6 . ILHA DAS FLORES © | Jorge Furtado – 8,74
7 . SANTIAGO | João Moreira Salles – 8,65
8 . VIDEOGRAMAS DA REVOLUÇÃO | Harun Farocki & Andrei Ujica – 8,62
9 . SANGUE DAS BESTAS © | Georges Franju – 8,46
10 . HOOP DREAMS | Steve James – 8,38
11 . AS I WAS MOVING AHEAD I OCASIONALLY SAW BRIEF GLIMPSES OF BEAUTY | Jonas Mekas – 8,36
12 . TITICUT FOLLIES | Frederick Wiseman – 8,36
13 . NANOOK DO NORTE | Robert Flaherty – 8,30
14 . PRISIONEIRO DA GRADE DE FERRO | Paulo Sacramento – 8,29
15 . ÔNIBUS 147 | José Padilha & Felipe Lacerda – 8,25
16 . LAS HURDES – TERRA SEM PÃO © | Luis Buñuel – 8,23
17 . DI © | Glauber Rocha – 8,23
18 . PRIMÁRIAS | Robert Drew – 8,09
19 . GARRINCHA, ALEGRIA DO POVO | Joaquim Pedro de Andrade – 8,06
20 . O PAÍS DE SÃO SARUÊ | Vladimir Carvalho – 8,00
21 . NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR © | João Moreira Salles – 7,78
22 . JUSTIÇA | Maria Augusta Ramos – 7,68
23 . ARUANDA © | Linduarte Noronha – 7,58
24 . VALSA COM BASHIR | Ari Folman – 7,55
25 . A BATALHA DO CHILE | Patricio Guzman – 7,50
26 . QUARTO 666 © | Win Wenders – 7,45
27 . OS DOCES BÁRBAROS | Jom Tob Azulay – 7,38
28 . SÃO PAULO – SINFONIA DA METRÓPOLE | A.Kemeny & R. Rex Lustig – 7,36
29 . SOCORRO NOBRE © | Walter Salles – 7,28
30 . VIRAMUNDO © | Geraldo Sarno – 7,25
31 . JANGO | Silvio Tendler – 7,17
*** . LINHA DE MONTAGEM | Renato Tapajós – 7,58
*** . IMAGENS DO INCONSCIENTE | Leon Hirszman – 7,92
*** . TERRA ESPANHOLA © | Joris Ivens – 8,38
*** . BURDEN OF DREAMS | Les Blank – 8,63
*** . HORA DE LOS HORNOS | Fernando Solanas – 7,25
*** . 79 PRIMAVERAS © | Santiago Alvarez – 7,75
*** . NO PAIZ DAS AMAZONAS | Joaquim G. de Araújo & Silvino Santos – 8,00


1 . UM CORPO QUE CAI | Alfred Hitchcock – 9,77
2 . A PALAVRA | Carl Theodor Dreyer – 9,72
3 . LUZES DA CIDADE | Charles Chaplin – 9,71
4 . JANELA INDISCRETA | Alfred Hitchcock – 9,66
5 . ERA UMA VEZ EM TÓQUIO | Yasujiro Ozu – 9,63
6 . A TURBA | King Vidor – 9,58
7 . PSICOSE | Alfred Hitchcock – 9,56
8 . CREPÚSCULO DOS DEUSES | Billy Wilder – 9,55
9 . ONDE COMEÇA O INFERNO | Howard Hawks – 9,54
10 . TRÊS HOMENS EM CONFLITO | Sergio Leone – 9,52
11 . O PODEROSO CHEFÃO | Francis Ford Coppola – 9,50
12 . 2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO | Stanley Kubrick – 9,50
13 . CIDADÃO KANE | Orson Welles – 9,43
14 . O PODEROSO CHEFÃO II | Francis Ford Coppola – 9,43
15 . TAXI DRIVER | Martin Scorsese – 9,40
16 . JOGO DE CENA | Eduardo Coutinho – 9,38
17 . CABRA MARCADO PARA MORRER | Eduardo Coutinho – 9,37
18 . O ESPÍRITO DA COLMÉIA | Víctor Erice – 9,36
19 . O HOMEM DA CÂMERA | Dziga Vertov – 9,31
20 . OURO E MALDIÇÃO | Erich von Stroheim – 9,29
21 . IMPÉRIO DO CRIME | Joseph H. Lewis – 9,29
22 . PERSONA | Ingmar Bergman – 9,26
23 . LARANJA MECÂNICA | Stanley Kubrick – 9,23
24 . QUANTO MAIS QUENTE MELHOR! | Billy Wilder – 9,22
25 . OS IMPERDOÁVEIS | Clint Eastwood – 9,22
26 . PARAÍSO INFERNAL | Howard Hawks – 9,22
27 . O ILUMINADO | Stanley Kubrick – 9,21
28 . VERDADES E MENTIRAS | Orson Welles – 9,20
29 . TABU | Miguel Gomes – 9,18
30 . A GRANDE ILUSÃO | Jean Renoir – 9,17