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Por Filipe Furtado:

O último filme de Yasujiro Ozu recebeu por aqui o título de A ROTINA TEM SEU ENCANTO justamente porque os primeiros artigos a chegarem ao ocidente sobre o então misterioso mestre japonês destacam justamente esta ideia. O tempo passou e nos 50 anos que nos separam da morte do mestre japonês, Yasujiro Ozu deixou de ser o misterioso cineasta oriental – cujo burburrinho dizia ser ainda maior que Mizoguchi e Kurosawa, mas cujos filmes não chegavam ao ocidente por serem “japoneses demais” – para se tornar parte integral do imaginário cinéfilo. Ano passado quando da votação da Sight & Sound dos maiores filmes de todos os tempos, ERA UMA VEZ EM TÓQUIO apareceu no topo da lista dos cineastas.

Esta ideia do cineasta que torna o mundano encantador segue a principal porta de entrada para aqueles que têm o prazer de descobrir seu cinema pela primeira vez, mas é preciso também falar da consistência com que Ozu chegava a estes resultados. Quando falamos nos filmes de Ozu, sobretudo os dramas familiares do pós guerra (a primeira metade da sua carreira é mais eclética) pensamos sempre nos mesmos rostos, motivos dramáticos, cenários e a mesma câmera e ritmo entre cenas. Poucos cineastas são tão distintos e ao mesmo tempo trabalharam de forma a depurar-se e impedir que tal repetição trouxesse consigo qualquer desgaste. Há um muito reconhecível mundo de Ozu e um no qual para cinéfilo será sempre um grande prazer retornar. É algo tornado claro quando observarmos que todos os dez filmes destacados no ranking abaixo integram no momento o top 100 do ranking histórico da Liga.


Estando mais uma vez no terreno dos embates familiares, das cisões entre pais e filhos, Ozu faz o filme essencial sobre os sacrifícios, especialmente os que uma mãe faz para que o filho se torne homem, a despeito da dificuldade dele em lhe retribuir à altura. Impressionante como o diretor sintetiza tanta dor através do tempo cotidiano que passa pesaroso. Dói, mas é de uma compaixão enorme por seus personagens.
Rafael Carvalho



O que parece, a princípio, a história de 2 irmãos que têm de se adaptar a uma nova vizinhança e enfrentar um valentão e sua gangue se releva um drama de maior escopo, quando os garotos começam a questionar a imagem do pai após uma chocante descoberta. É um exemplo magistral do macro (a sociedade) sendo representado pelo micro (a família), num filme que poderia ser cruel, não fosse o diretor um espírito conciliador.
Marcelo Valletta



TAMBÉM FOMOS FELIZES, porque um autor completo, o cinema de Ozu, com suas constantes temáticas e estilísticas, pode ser visto como um único filme, um macrofilme cujas obras singulares são apenas variações sobre um mesmo tema. TAMBÉM FOMOS FELIZES é a segunda parte da trilogia de Noriko (Setsuko Hara), que, vivendo numa família dinâmica e equilibrada, precisa, no entanto, se casar e viver fora de casa. Retrato da sociedade japonesa com as mudanças ocorridas depois da Segunda Guerra Mundial.
André Setaro



Síntese do cinema de Ozu, aqui estão os temas, cenários, personagens e a sensibilidade do homem que sabia explorar o mesmo sem se repetir.
Chico Fireman



DIA DE OUTONO é mais uma obra-prima de Ozu: Com humor ímpar, relações de amizade e relações maternas, tudo se mistura para demonstrar o padrão cíclico da vida. A maestria do diretor japonês para expor o cotidiano é, ao mesmo tempo, encantadora e impressionante. A beleza simples de suas imagens faz com que os eventos vistos sejam ainda mais familiares e próximos. Uma maravilha para os olhos e o coração.
Cecilia Barroso



CREPÚSCULO EM TÓQUIO exemplifica bem a filmografia de Ozu e seu hábito de retratar dramas familiares. Aqui, o foco está no afeto paterno e no orgulho das aparências, mas há também o reconhecimento do erro e a perda desse orgulho. É uma obra que demonstra seres falíveis, que desistem quando a pressão aumenta e que não têm vergonha de demonstrar a necessidade de um gole para suportar o peso. Com a dor e a culpa, os personagens só podem retornar às suas rotinas, desta vez, acompanhados de uma conformada solidão.
João Paulo Barreto



Em BOM DIA, Ozu entrega uma visão muito peculiar sobre a classe média e seus anseios catalisados no desejo de duas crianças por uma televisão. Apesar de vir em uma embalagem colorida, leve e descontraída, é um trabalho que carrega uma pesada melancolia nas entrelinhas, onde vemos um Japão do pós-guerra e com uma identidade ainda confusa. Mas nada que afaste a paixão que o diretor tem pelos seus personagens.
Daniel Pilon



Em Breve…
Mauricio Ribeiro



PAI E FILHA é Ozu por excelência. Estão lá os conflitos domésticos e geracionais e o rigor formal. Ozu, como poucos, foi um fantástico retratista de seu tempo, acompanhando as mudanças socioculturais do Japão. PAI E FILHA inaugura sua terceira fase, a que sedimentou seu estilo (planos estáticos, câmera baixa etc). Não à toa, em 1949, ano posterior ao fim do controle dos EUA no cinema japonês. Seu caráter observacional não poderia se encaixar melhor do que no momento mais crítico de seu interesse.
Gabriel Carneiro



Foi o meu primeiro contato com Ozu. Em uma tarde qualquer de 2008, me preparava para dormir durante a aula. Mas eis que a sucessão de fotogramas naquela TV 14 polegadas me cativara de uma maneira impressionante. Não dá para confiar muito nas legendas. Mas não importa, a linguagem de Ozu é universal. A estrutura de uma família nunca foi tão bem capturada como aqui. Se a vida é decepcionante, ao menos nos resta o cinema.
Mateus Nagime


Filmografia Ozu

1 . ERA UMA VEZ EM TÓQUIO | Yasujiro Ozu – 9,81
2 . PAI E FILHA | Yasujiro Ozu – 9,05
3 . FLOR DE EQUINOCIO | Yasujiro Ozu – 9,05
4 . BOM DIA | Yasujiro Ozu – 9,04
5 . CREPUSCULO EM TÓQUIO | Yasujiro Ozu – 8,93
6 . DIA DE OUTONO | Yasujiro Ozu – 8,93
7 . A ROTINA TEM SEU ENCANTO | Yasujiro Ozu – 8,91
8 . TAMBEM FOMOS FELIZES | Yasujiro Ozu – 8,85
9 . MENINOS DE TÓQUIO | Yasujiro Ozu – 8,81
10 . FILHO ÚNICO | Yasujiro Ozu – 8,77
11 . O SABOR DO CHÁ VERDE SOBRE O ARROZ | Yasujiro Ozu – 8,43
12 . UMA HISTÓRIA DE ERVAS FLUTUANTES | Yasujiro Ozu – 8,36
13 . ERA UMA VEZ UM PAI | Yasujiro Ozu – 8,25
14 . FIM DE VERÃO | Yasujiro Ozu – 8,00
15 . CORAL DE TÓQUIO | Yasujiro Ozu – 7,63
16 . DIAS DE JUVENTUDE | Yasujiro Ozu – 7,29
*** . ONDE ESTÃO OS SONHOS DA JUVENTUDE? | Yasujiro Ozu – 8,92
*** . CORAÇÃO CAPRICHOSO | Yasujiro Ozu – 8,17
*** . ERVAS FLUTUANTES | Yasujiro Ozu – 9,60
*** . MULHER DE TÓQUIO | Yasujiro Ozu – 7,90
*** . A DELINQUENTE | Yasujiro Ozu – 7,80
*** . COMEÇO DE PRIMAVERA | Yasujiro Ozu – 9,25
*** . UMA GALINHA NO VENTO | Yasujiro Ozu – 8,63
*** . AS IRMÃS MUNEKATA | Yasujiro Ozu – 8,25
*** . FUI REPROVADO MAS | Yasujiro Ozu – 8,13
*** . A MULHER DAQUELA NOITE | Yasujiro Ozu – 8,00
*** . ESTALAGEM EM TÓQUIO | Yasujiro Ozu – 8,00
*** . OS IRMÃOS DA FAMILIA TODA | Yasujiro Ozu – 7,88
*** . THE RECORD OF A TENEMENT GENTLEMAN | Yasujiro Ozu – 9,33
*** . O ATOR TOKKAN KOZÔ | Yasujiro Ozu – 8,83
*** . A SENHORA E O SEI FAVORITO | Yasujiro Ozu – 8,83
*** . WHAT DID THE LADDY FORGET? | Yasujiro Ozu – 8,75
*** . MÃE TEM QUE SER AMADA | Yasujiro Ozu – 8,25
*** . ANDE ALEGREMENTE | Yasujiro Ozu – 7,00
*** . RIVAIS A JAPONESA | Yasujiro Ozu – 8,00
*** . A DANÇA DO LEÃO | Yasujiro Ozu – SEM NOTA


Na condição de cineasta que cravou para si um universo muito especifico, Yasujiro Ozu é ao mesmo tempo uma influência frequente em outros realizadores que lidam com relações familiares e um realizador de estilo inimitável. Este ranking paralelo fui curado de forma a permitir um recorte amplo da relação de Ozu com a história do cinema. Primeiro os filmes do qual ele era conhecido fã na virada da década de 20/30 quando era um grande consumidor de cinema americano, depois um olhar sobre os seus conterrâneos da indústria japonesa tanto os mais conhecidos (Mizoguchi, Kurosawa) como aqueles que também mereciam sê-lo (Naruse, Shimizu). Por fim, um amplo painel da sua influência começando por seus assistentes como Shohei Imamura e Masahiro Shinoda que ao passarem a direção encararam no como um pai que precisavam renegar e chegando até cineastas e filmes contemporâneos como Hou Hsiao-Hsien e Yoji Yamada que abraçam a sua influência e por vezes realizam filmes em que ela está em primeiro plano.


James Cagney assustou o mundo como o “Inimigo público” do filme de William Wellman. No começo do filão dos chamados “filmes de gângsters”, este então desconhecido ator deixou sua marca com rajadas de metralhadora e de palavras. Falando rápido, atirando ou enfiando uma laranja na cara de Mae Clarke, Cagney deixou desde cedo bem claro que sua carreira e o novo gênero tinham chegado para ficar.
Marcelo Rennó



Kiyoshi Kurosawa é conhecido por dirigir filmes de terror. SONATA DE TÓQUIO não se enquadra exatamente no gênero, mas, intimamente, seus personagens estão sendo assombrados – pelo desemprego, pela desconfiança, pela falta de esperança. A família Sasaki enfrenta um inquietamento existencial, mas seus membros tentam manter as aparências, algo que vai além de um mero mecanismo de defesa. E não deixa de ser curioso que o ladrão, que normalmente seria o vilão da história, seja também uma vítima.
Renato Silveira



A câmara de Hirokazu Koreeda filma os silêncios dos espaços, das personagens e do seu quotidiano, com uma aparente simplicidade que descortina afinal toda a dinâmica complexa de uma família e os seus segredos. Drama sútil, elegante e delicado como raramente se viu em cinema, SEGUINDO EM FRENTE é um exercício virtuoso de cinema, mas também uma lição de como olhar a vida e a sua intimidade.
Thiago Ramos



A CRUZ DOS ANOS é um dos mais importantes e belos filmes já feitos sobre a terceira idade. Embora se trate de um melodrama, o registro de Leo McCarey é até bastante realista, antecedendo o neorrealismo italiano e encontrando paralelos com a obra de Ozu, cineasta tão carinhoso com os idosos, que aqui aparecem como estorvos para os filhos. Não para os espectadores, que sofrem junto com eles essa nova realidade cruel.
Ailton Monteiro



A imagem icônica de Carlitos com um sorriso ingênuo, mordendo os lábios com seu dedo enquanto segura uma rosa, olhando para a jovem florista cega pela qual se apaixona, produz um tom mágico de uma cena clássica da história do cinema. Os bastidores da produção, entretanto, faziam contraponto às imagens criadas para o filme, Chaplin e Virginia Cherrill se desentendiam constantemente, e tudo isto parecia de forma antagônica aumentar a força imagética da relação amorosa dos personagens na fantasia do cinema.
Wendell Borges


Mondo Ozu
1 . LUZES DA CIDADE | Charles Chaplin – 9,71
2 . A CRUZ DOS ANOS | Leo Mccarey – 9,00
3 . SEGUINDO EM FRENTE | Hirozu Kore-Eda – 8,86
4 . SONATA DE TÓQUIO | Kiyoshi Kurosawa – 8,55
5 . O INIMIGO PUBLICO | William Wellman – 8,31
6 . VIVER | Akira Kurosawa – 8,23
7 . CAFÉ LUMIERE | Hou Hsiao-Hsien – 8,13
8 . MADADAYO | Akira Kurosawa – 8,05
9 . 35 DOSES DE RUM | Claire Denis – 7,97
10 . HANA-BI – FOGOS DE ARTÍFICIO | Takeshi Kitano – 7,88
11 . OSSOS | Pedro Costa – 7,86
12 . O CAMPEÃO | King Vidor – 7,79
13 . ANATOMIA DO MEDO | Akira Kurosawa – 7,79
14 . TÓQUIO GA | Win Wenders – 7,44
15 . CINCO | Abbas Kiarostami – 7,44
16 . MISHIMA | Paul Schrader – 7,31
17 . STRANGER THAN PARADISE | Jim Jamursch – 7,18
*** . JUIZ PRIEST | John Ford – 8,67
*** . DOCAS DE NOVA YORK | Josef Von Sternberg – 8,90
*** . OS 47 RONIN | Kenji Mizoguchi – 8,50
*** . A VIDA DE OHARU | Kenji Mizoguchi – 8,40
*** . UMA FAMILIA EM TÓQUIO | Yoji Yamada – 8,30
*** . CIDADE DAS TRISTEZAS | Hou Hsiao-Hsien – 7,13
*** . PORCOS E COURAÇADOS | Shohei Imamura – 9,17
*** . CONTO DOS CRISANTEMOS TARDIOS | Kenji Mizoguchi – 9,00
*** . FILHA ESPOSA E MÃE | Mikio Naruse – 9,25
*** . O BAMBA DA ZONA | Raoul Walsh – 9,00
*** . BATALHA DE ROSAS | Mikio Naruse – 9,00
*** . AS IRMÃS MAKIOKA | Kon Ichikowa – 8,00
*** . O RETORNO DE CARMEN | Keisuke Kinoshita – 6,25
*** . INTROSPECTION TOWER | Hiroshi Shimizu – 9,00
*** . EROS + MASSACRE | Kiju Yoshida – 9,00
*** . RABANETES E CENOURAS | Minoru Shibuya – 8,50
*** . A BROTHER AND HIS SISTER | Yasujiro Shimazu – 8,00
*** . DUPLO SUICIDIO | Masahiro Shinoda – 8,00


Ranking Geral
1 . ERA UMA VEZ EM TÓQUIO | Yasujiro Ozu – 9,81
2 . A PALAVRA | Carl Theodor Dreyer – 9,72
3 . LUZES DA CIDADE | Charles Chaplin – 9,71
4 . JANELA INDISCRETA | Alfred Hitchcock – 9,66
5 . UM CORPO QUE CAI | Alfred Hitchcock – 9,61
6 . A TURBA | King Vidor – 9,58
7 . PSICOSE | Alfred Hitchcock – 9,56
8 . CREPÚSCULO DOS DEUSES | Billy Wilder – 9,55
9 . ONDE COMEÇA O INFERNO | Howard Hawks – 9,54
10 . TRÊS HOMENS EM CONFLITO | Sergio Leone – 9,52
11 . O PODEROSO CHEFÃO | Francis Ford Coppola – 9,50
12 . 2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO | Stanley Kubrick – 9,50
13 . CIDADÃO KANE | Orson Welles – 9,43
14 . O PODEROSO CHEFÃO II | Francis Ford Coppola – 9,43
15 . TAXI DRIVER | Martin Scorsese – 9,40
16 . LUZES DA CIDADE | Charlie Chaplin – 9,39
17 . O ESPÍRITO DA COLMÉIA | Víctor Erice – 9,36
18 . OURO E MALDIÇÃO | Erich von Stroheim – 9,29
19 . IMPÉRIO DO CRIME | Joseph H. Lewis – 9,29
20 . PERSONA | Ingmar Bergman – 9,26
21 . TABU | Miguel Gomes – 9,25
22 . LARANJA MECÂNICA | Stanley Kubrick – 9,23
23 . QUANTO MAIS QUENTE MELHOR! | Billy Wilder – 9,22
24 . OS IMPERDOÁVEIS | Clint Eastwood – 9,22
25 . PARAÍSO INFERNAL | Howard Hawks – 9,22