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Por Gabriel Carneiro:


Ray Harryhausen nos deixou no último 7 de Maio. Estava com 92 anos, com a saúde um tanto debilitada e afastado daquilo que lhe deu fama desde 1981, quando fez a FÚRIA DE TITÃS – depois até chegou a fazer algumas pontas em filmes de fãs, como John Landis. Harryhausen, é importante ressaltar, não ficou famoso por ser o criador dos efeitos especiais de um bocado de filmes que fez bastante sucesso, e sim por sua incomparável capacidade de dar expressões a bonecos articulados, criados com massinha, arames, madeira e outros materiais cênicos. Havia, em seus personagens, um incrível humanismo, mesmo seus objetos inanimados traziam muita vida – é só ver A INVASÃO DOS DISCOS VOADORES.

Nascido em Los Angeles, em 1920, Harryhausen decidiu fazer cinema ao ver KING KONG, em 1933. Começou fazendo experiências na garagem de sua casa, articulando bonecos e filmando com uma camereta 16mm. A primeira chance profissional se deu como animador na série PUPPETOONS, em 1940. Mas veio a 2ª Guerra Mundial e o sujeito partiu para a Europa, fazendo documentários, ao lado de, entre outros, Frank Capra. De volta aos EUA, realizou uma série de animações intituladas “The Mother Goosie Stories” – destaque para “Humpty Dumpty”. A coisa engrenou quando foi chamado pelo seu mestre para fazer parte de sua equipe em O MONSTRO DO MUNDO PROIBIDO, que levou o primeiro Oscar da categoria efeitos especiais.


Ray especializou-se nos filmes fantásticos, primeiro nas ficções científicas, como O MONSTRO DO MAR, O MONSTRO DO MAR REVOLTO, A INVASÃO DOS DISCOS VOADORES, A VINTE MILHÕES DE MILHAS DA TERRA e OS PRIMEIROS HOMENS NA LUA, e posteriormente nos filmes de fantasia, em especial nos épicos de mitologia. Seus três Simbad (SIMBAD E A PRINCESA, A NOVA VIAGEM DE SIMBAD e SIMBAD E O OLHO DO TIGRE), FÚRIA DE TITÃS e JASÃO E O VELO DE OURO são perfeitos exemplos. Embrenhou-se também por histórias clássicas, como AS VIAGENS DE GULLIVER e A ILHA MISTERIOSA. Criou, assim, seres que povoaram a mente de fãs do gênero – e encantaram e influenciaram a criançada -, como a Medusa, de FÚRIA DE TITÃS, o Ciclope, de SIMBAD E A PRINCESA, e o exército de esqueletos, de JASÃO E O VELO DE OURO.

Não só, Harryhausen revolucionou a indústria dos efeitos ao baratear o processo de feitura de stop motion com imagens live action, com seu método, o Dynamation. Até então, usava-se pinturas em vidros para criar o efeito, um artifício caro e que consumia bastante tempo. O Dynamation consistia em três camadas sobrepostas para integrar animação e live action. Em uma tela translúcida, a filmagem live action era projetada e funcionava como fundo. À sua frente, ficava a mesa da animação, e em seguida vinha um vidro fosco onde Harryhausen pintava de preto o que deveria ficar em primeiro plano da filmagem em live action. Ele filmava uma passagem com os movimentos da animação e o fundo, deixando uma parte do filme sem exposição. Ele então rebobinava esse filme, pintava de preto no vidro o equivalente às partes já expostas, e rodava o que ficaria em primeiro plano e havia sido apagado na primeira passagem.


Harryhausen eventualmente virou produtor e força criativa de seus filmes. Com Charles H. Schneer, que apostou em seu potencial, criou parceria que duraria até o fim. Juntos, produziram histórias de interesse de Ray, visando, claro, o interesse do público. Harryhausen fez quase tudo sozinho – apenas nos últimos filmes contou com assistentes -, dirigindo inclusive as cenas de efeitos, o que lhe dava controle da produção: suas criações eram as estrelas.

Glorious victory over the wrong-end-of-the-egg scum!



Adaptar o texto de Jonathan Swift foi o desafio de Jack Sher, mas não seria errado dizer que o desafio maior foi o de Ray Harryhausen, já que recriar o mundo de Lilliput nos anos 60 era uma tarefa praticamente impossível. Ray conseguiu e apesar do filme hoje parecer datado e bastante infantilizado, a magia de iludir o público quanto ao tamanho dos habitantes da paradisíaca ilha perdida pelo tempo permanece.
Alexandre Landucci


As you were, Sergeant.
Unidentified Flying Object reported flying due West, sir. Probably a buzzard.



Um dos hits de bilheteria de 1956, este longa dirigido por Fred F. Sears teve em sua concepção a participação do grande Ray Harryhousen, mestre na arte do stop-motion. A trama apresenta a luta de um casal de cientistas que trabalham para o governo para deter o ataque de alienígenas que ameaçam dominar o planeta terra. A onda tecnológica da época girava em torno do lançamento de satélites como o russo Sputnik (1957) e o norte-americano Explorer 1 (1958), cujo projeto já havia sido anunciado. O longa refletia, então, o interesse do público em torno desta revolução tecnológica.
Wendell Borges


Kill! Kill him!



Filmar uma história de piratas hoje demanda toneladas de CGI para maquiar uma trama desnecessariamente complicada. Já nos anos 50, bastava juntar alguns caras dispostos a narrar na tela uma aventura fantástica que uma criança poderia imaginar. O diretor Nathan Juran era dessa turma e encontrou em Ray Harryhausen o parceiro perfeito para nos fascinar com seus monstros em Dynamation. Pura e verdadeira magia do cinema.
Renato Silveira


Look at that bee!
That’s not a bee, it’s a mosquito!



Ray Harryhausen precisou de mais de um ano após as filmagens de O OLHO DO TIGRE para fazer todo o trabalho de animação que acompanha a aventura do marinheiro Sinbad em sua jornada para levar um príncipe transformado em babuíno às terras de Ademaspai para restaurá-lo em sua forma humana a tempo de sua coroação. No caminho, precisa lidar com Zenobia, uma bruxa maligna, e as criaturas fantásticas que só poderiam ter saído da mente de Harryhausen e que até hoje não perderam o poder de fascinação.
Ronald Perrone


Pray to the gods, Jason!
The Gods of Greece are cruel! In time, all men shall learn to live without them.



O segundo longa aonde Ray Harryhausen usou a técnica do Stop-Motion, nem de longe é um filme perfeito: Dirigido por Don Cheffay, falta a essa adaptação da mitologia grega, uma dramaturgia mais elaborada. Mas se peca pelo roteiro superficial, ganha pelos monstros criados por esse artesão genial. Um verdadeiro deleite visual, um pouco artificial, mas um grande trabalho, onde reside boa parte de magia (da sétima arte).
Celo Silva


Filmografia Harryhausen

1 . JASÃO E O VELO DE OURO | Don Chaffey – 7,65
2 . SIMBAD E O OLHO DO TIGRE | Sam Wanamaker – 7,56
3 . SIMBAD E A PRINCESA | Nathan Juran – 7,50
4 . A INVASÃO DOS DISCOS VOADORES | Fred F. Sears – 7,50
5 . AS VIAGENS DE GULLIVER | Jack Sher – 7,28
6 . A NOVA VIAGEM DE SIMBAD | Gordon Hessler – 7,22
7 . A 20 MILHÕES DE MILHAS DA TERRA | Nathan Juran – 6,90
8 . FÚRIA DE TITÃS | Desmond Davis – 6,69
9 . PODEROSO JOE | Ron Underwood – 5,96
10 . MIL SÉCULOS ANTES DE CRISTO | Don Chaffey – 5,86
11 . UM TIRA DA PESADA III | John Landis – 5,80
*** . O MONSTRO DO MAR | Eugene Lourie – 7,17
*** . O MONSTRO DO MAR REVOLTO | Robert Gordon – 7,42
*** . O MONSTRO DO MUNDO PROIBIDO | Ernest B. Shoedsack – 7,10
*** . A ILHA MISTERIOSA | Cy Endfield – 6,20
*** . OS ESPIÕES QUE ENTRARAM NUMA FRIA | John Landis – 7,50
*** . OS PRIMEIROS HOMENS NA LUA | Nathan Juran – 7,50
*** . O MILAGRE DA VIDA | Irwin Allen – 5,00
*** . O VALE PROIBIDO | Jim O’Connoly – 6,67
*** . BURKE AND HARE | John Landis – 5,75
*** . AS CRÔNICAS DE HARRYHAUSEN | Richard Schickel – 6,75
*** . RAY HARRYHAUSEN: SPECIAL EFFECTS TITAN | Gilles Penso – 8,00
*** . THE PUPPETOON MOVIE | Arnold Leibovit – SEM NOTA
*** . THE BONEYARD COLLECTION | Edward L. Plumb – SEM NOTA


Parece pouca coisa, olhando a filmografia de Ray Harryhausen: São 16 longas, mais um bocado de curtas. Mas esse sujeito revolucionou a indústria dos efeitos especiais ao redor do mundo e influenciou um montão de gente. Seus filmes podem não ter sido marcos na história do cinema, mas sua habilidade, técnica e capacidade criativa influenciaram as mais diversas pessoas, de cineastas consagrados como Steven Spielberg, George Lucas, John Landis, James Cameron, Peter Jackson e Tim Burton, além de vários mestres dos efeitos, como Rick Baker, Tom Savini e Rob Bottin, e outros tantos animadores, como Nick Park.


Devoto de Willis O’Brien, um dos criadores da técnica de stop motion, que Harryhausen abraçou como propósito de vida após ver e se encantar com KING KONG (1933), de Merian C. Cooper e Ernest B. Shoedshack, o animador dedicou-se ao mundo do fantástico, muito por conta dos filmes que o influenciaram na juventude – alguns desses filmes estão compilados na lista desse Mondo Harryhausen, como o visionário e ousadíssimo MONSTROS, de Tod Browning, e a animação psicodélica FANTASIA, da Disney. Harryhausen trabalharia em uma oportunidade, como técnico, com seu mestre, em O MUNDO DO MONSTRO PROIBIDO, animando boa parte do filme.

Desde que começou a trabalhar profissionalmente, o gênio de Harryhausen teve efeitos sobre outros filmes, vários contemporâneos com quem trabalhou, como o cineasta George Pal – com quem fez a série animada Puppetoons, em 1940; Pal posteriormente faria A MÁQUINA DO TEMPO (1960) e AS 7 FACES DO DR. LAO (1964), entre outros, bebendo de Harryhausen -, o próprio O’Brien, em O MONSTRO SUBMARINO, e Ishirô Honda ao recriar no Japão sua versão de O MONSTRO DO MAR, o GODZILLA.


A importância de Harryhausen foi tão grande que, mesmo se aposentando após FÚRIA DE TITÃS, foi homenageado por inúmeras animações (MONSTROS S.A., A NOIVA CADÁVER, WALLACE & GROMIT, entre outras) e por blockbusters fantásticos (JURASSIC PARK, O SENHOR DOS ANÉIS, A MÚMIA, UMA NOITE ALUCINANTE 3). Não à toa, foi reconhecido pela Academia de Cinema norte-americana, ganhando um Oscar honorário em 1992.

Esse mondo, bem, também não deixa de ser também um tributo a esse sujeito que levou, como poucos, o cinema à categoria de sonho:


Um filme que se nutre do fantástico, flerta com as tramoias políticas, tem pitadas de romance (e até uma insinuação sexual incrivelmente subliminar). Mas é, no fundo, um conto infantil dos mais graciosos, banhado de ingenuidade, ainda que o Dr. Lao e sua trupe escancarem certas mentalidades tacanhas. É o poder da fantasia contra os moralismos e ignorâncias do mundo. E o mundo é mesmo um circo, mágico e maravilhoso.
Rafael Carvalho



Com JURASSIC PARK, Spielberg nos fez acreditar que os dinossauros estavam novamente andando sobre a Terra. E ainda retomou o sensacional tom de suspense de seu clássico TUBARÃO. Só que usando bem menos água (alguns copos apenas) para alcançar o mesmo resultado: Tensão total. Mais do que ótimos efeitos especiais, o filme é especial por criar cenas antológicas que já estão no inconsciente coletivo do universo pop.
William Wilson



Oito décadas depois, MONSTROS ainda choca e constrange pela frontalidade de seus corpos estranhos, aberrantes e, acima de tudo, reais. Mas o que fez esse body horror de Browning envelhecer tão bem é a empatia transmitida pelos tais monstros circenses. Ver o mundo através de seus olhos evidencia que o grotesco não se encontra em deformações físicas, mas nos desvios de caráter dos apresentáveis e comuns.
Felipe Moraes



De vez em quando, o cinema surge imenso, grandioso, monumental em frente aos nossos olhos. Mais do que apenas inaugurar tecnologias, esses filmes de proporções gigantescas viabilizam sonhos. Uns recriam universos, outros inaugura fantasias. A primeira encarnação de King Kong foi um destes marcos. A partir dali, o cinema mudou. A imaginação ganhou novas dimensões. E o topo do Empire State nunca mais foi o mesmo.
Chico Fireman



Coletânea de “Silly Symphonies”, eis a arte pela arte, ou a “arte” por Disney, “o filme que faria de Bethoven um grande sucesso”. Na verdade, uma FANTASIA, a meditação gótica banhada em música clássica e impregnada de sombrias visões de medo, solidão, contrição e tristeza. Sim, um exercício intelectual e como tal, sobrecarregado de autoconsciência, tão estranho e fascinante como qualquer obra de arte. E esse era o objetivo.
Mauricio Ribeiro


Mondo Harryhausen
1 . FANTASIA | Vários Diretores – 8,71
2 . KING KONG | Ernest B. Shoedsack & Merian C. Cooper – 8,69
3 . MONSTROS | Tod Browning – 8,55
4 . JURASSIC PARK | Steven Spielberg – 8,31
5 . AS SETE FACES DO DR. LAO | George Pal – 8,28
6 . O EXTERMINADOR DO FUTURO | James Cameron – 8,19
7 . O LADRÃO DE BAGDÁ | Michael Powell, Ludwig Berger & Tim Whelan – 8,13
8 . GUERRA NAS ESTRELAS – EP.V | George Lucas – 8,10
9 . MONSTROS S.A | Pete Docter & David Silverman – 8,09
10 . O SENHOR DOS ANÉIS – A SOCIEDADE DO ANEL | Peter Jackson – 7,93
11 . GODZILLA, O MONSTRO DO MAR | Ishirô Honda – 7,89
12 . O SENHOR DOS ANÉIS – O RETORNO DO REI | Peter Jackson – 7,81
13 . O ESTRANHO MUNDO DE JACK | Henry Sellick – 7,78
14 . O SENHOR DOS ANÉIS – AS DUAS TORRES | Peter Jackson – 7,73
15 . GUERRA NAS ESTRELAS – EP.IV | George Lucas – 7,69
16 . A FUGA DAS GALINHAS | Nick Park – 7,63
17 . O MUNDO PERDIDO | Harry O. Hoyt – 7,50
18 . A NOIVA CADÁVER | Tim Burton – 7,43
19 . KING KONG | Peter Jackson – 7,40
20 . WALLACE & GROMIT: A BATALHA DOS VEGETAIS | Nick Park – 7,22
21 . FRANKENWEENIE | Tim Burton – 7,17
22 . PIRANHA | Joe Dante – 7,12
23 . UMA NOITE ALUCINANTE 3 | Sam Raimi – 7,11
24 . GUERRA NAS ESTRELAS – EP.VI | George Lucas – 7,09
25 . MARTE ATACA! | Tim Burton – 7,02
26 . GUERRA DOS MUNDOS | Byron Haskin – 6,90
27 . DAQUI A CEM ANOS | William Cameron Menzies – 6,75
28 . A MÚMIA | Stephen Sommers – 5,91
29 . FÚRIA DE TITÃS | Louis Leterrier – 4,52
*** . ZAROFF, O CAÇADOR DE VIDAS | Ernest B. Shoedsack & Irving Pichel – 7,75
*** . O MONSTRO SUBMARINO | Eugene Lourie – 5,83
*** . QUANDO OS DINOSSAUROS DOMINAVAM A TERRA | Val Guest – 6,33
*** . STARCRASH | Luigi Cozzi – 5,67
*** . O FILHO DE KONG | Ernest B. Shoedsack – 7,00
*** . UM MILHÃO DE ANOS ANTES DE CRISTO | Hal Roach & Hal Roach Jr. – 7,00
*** . THE NAKED MONSTER | Ted Newsom – 8,50
*** . ELA, A FEITICEIRA | Lansing C. Holden & Irving Pichel – SEM NOTA


Ranking Geral
1 . A PALAVRA | Carl Theodor Dreyer – 9,72
2 . JANELA INDISCRETA | Alfred Hitchcock – 9,66
3 . UM CORPO QUE CAI | Alfred Hitchcock – 9,61
4 . A TURBA | King Vidor – 9,58
5 . PSICOSE | Alfred Hitchcock – 9,56
6 . CREPÚSCULO DOS DEUSES | Billy Wilder – 9,55
7 . ONDE COMEÇA O INFERNO | Howard Hawks – 9,54
8 . TRÊS HOMENS EM CONFLITO | Sergio Leone – 9,52
9 . O PODEROSO CHEFÃO | Francis Ford Coppola – 9,50
10 . 2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO | Stanley Kubrick – 9,50
11 . CIDADÃO KANE | Orson Welles – 9,43
12 . O PODEROSO CHEFÃO II | Francis Ford Coppola – 9,43
13 . TAXI DRIVER | Martin Scorsese – 9,40
14 . LUZES DA CIDADE | Charlie Chaplin – 9,39
15 . O ESPÍRITO DA COLMÉIA | Víctor Erice – 9,36
16 . OURO E MALDIÇÃO | Erich von Stroheim – 9,29
17 . IMPÉRIO DO CRIME | Joseph H. Lewis – 9,29
18 . PERSONA | Ingmar Bergman – 9,26
19 . TABU | Miguel Gomes – 9,25
20 . LARANJA MECÂNICA | Stanley Kubrick – 9,23
21 . QUANTO MAIS QUENTE MELHOR! | Billy Wilder – 9,22
22 . OS IMPERDOÁVEIS | Clint Eastwood – 9,22
23 . PARAÍSO INFERNAL | Howard Hawks – 9,22
24 . A GRANDE ILUSÃO | Jean Renoir – 9,17
25 . JOGO DE CENA | Eduardo Coutinho – 9,15