Os Miseráveis

por Pedro Primo

Não há uma imagem de Os Miseráveis. Ou melhor. Não há uma imagem sólida deste filme. O que sobra nos seus planos são as certezas do roteiro. Quando penso na somatória de cenas, a palavra que fica na minha cabeça é cobrança. Uma cobrança de pena e consideração por personagens que, inegavelmente, sofrem.

Numa das canções do filme, o povo nas ruas pergunta se estamos ouvindo a canção dos homens zangados. “Está é a música de pessoas que não serão mais escravos” eles gritam. Porque estas pessoas estão com raiva? Do que eles são escravos? Da crueldade do ser humano? Ou seria do melodrama do roteiro?

Em Os Miseráveis os personagens não se projetam, são projetados. Não importa quem é o ator por trás da interpretação, ele está ali somente para servir à miséria da cena (nos dois sentidos da palavra). Não há liberdade. Não há sentimento que sobreviva às certezas grotescas do roteiro. Nem mesmo a interpretação dedicada de Anne Hathaway na esperada cena da canção I Dreamed a Dream é capaz de suavizar o material. Tom Hooper queria filmar um brando, um grito de homens raivosos. Mas filmou o kitsch, o tolo, a encenação do que não está ali. Não há sangue nos seus fotogramas.

O livro de Victor Hugo era uma história de bandeiras. As bandeiras deste filme são levantadas apenas graficamente. Adaptados da peça da Broadway, os seus dramas tornam-se apresentações isoladas, blocos que dividem o filme em momentos fechados de interpretações escandalosas e de desfiles insossos de câmera.

Do original perdeu-se a comunicação universal. O longa de Tom Hooper é um musical unidimensional sobre pessoas também unidimensionais. Todas as histórias não são ligadas por ideais em comum, mas por mais e mais melodrama. Inevitável enxergar todo o clima épico – completamente justificado no livro homônimo – como uma odisseia piegas.

O carrossel melodramático culmina numa desgovernada composição de planos – que jamais se comunicam com a narrativa. Assistimos o diretor construir imagens estéreis que, além de não fornecerem nenhum dizer, pecam por desgastar seus atores. O cenário acaba sofrendo com o uso sem sentido de grandes angulares e anglos holandeses. Tom Hooper petrifica a vida dos seus planos para criar molduras que tremem e se movimentam gratuitamente.

Os Miseráveis não é filme sobre vidas. Trata-se de holofote apontado sobre a desgraça. No fim, ouço os tambores e vejo as bandeiras; no entanto, o povo na rua só me parece um mar de figurantes vestidos com roupas de época.

Os Miseráveis
Les Misérables
EUA/Inglaterra – 2012
Direção: Tom Hooper