O Mestre

O retorno de Paul Thomas Anderson
por Cesar Castanha

Em 1999, Janet Maslin, então crítica do New York Times, fez uma análise impiedosa do cinema de Paul Thomas Anderson em seu texto sobre Magnólia, o terceiro longa-metragem do diretor. Maslin não se permitiu ser levada tão facilmente pelas habilidades estéticas de Anderson e questionou a falha de desenvolvimento da trama e de seus personagens. Ela escreveu, sem perder sua doçura usual, que “até a Bíblia sabia que só deve se usar uma praga divina no clímax como último recurso”.

Durante esses 14 anos, todos os tipos de água rolaram. Maslin aposentou a caneta e Anderson cresceu como diretor (apesar de só ter feito mais três filmes), alcançando uma nova geração de fãs (incluindo a mim) que chegaram até o diretor através do status canônico que Sangue Negro recebeu da crítica mundial logo no momento de seu lançamento. E, como tantos outros, eu caí babando pelo cinema de PTA, pela perfeição estética que representa, pela maestria da sua mise-en-scène. E ninguém em sã consciência diria que, considerando os motivos citados, O Mestre é de alguma forma menos babável.

O último filme do já comprovado talentosíssimo diretor foi apenas um pouco menos aclamado que Sangue Negro, e há ainda quem credite esse pouco menos à mania comum da crítica de se afastar da imagem de fã quando a admiração por um nome autoral é intensa. O Mestre é a história de Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um homem que foi danificado pelo tempo que serviu na marinha durante a Segunda Guerra Mundial. Ele vaga sem rumo, de trabalho em trabalho, até encontrar Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o criador de um culto ambicioso que é referido no filme apenas como a causa (houve boatos de que a causa seria uma referência de Anderson à cientologia, mas foram desmentidos pelo diretor). A filosofia de Dodd acredita em uma espécie de cura psicológica e alcance da pureza espiritual através da reconexão com o passado.

Todo o elenco brilha em cena. Com destaque para Amy Adams no papel perturbador de Peggy Dodd, esposa de Lancaster. A atriz traz no olhar raiva, ódio e intolerância que traduzem a cruel busca pelo esmero feminino da época.

No entanto, há um porém que faz com que O Mestre se aproxime mais de Magnólia que de Sangue Negro, pois esse sofre do mesmo mal observado por Maslin em sua análise do filme de 1999. A trama de O Mestre, assim como seus personagens, não é desenvolvida pelo roteiro. Na verdade, ela e eles não passam de servos da assinatura técnica de Anderson. Também como Magnólia, há aqui uma incômoda repetição estética. Há cada meia hora, Anderson demonstra sua maestria equilibrando meticulosamente trilha sonora, montagem, fotografia e atuações para reproduzir uma mesma (bela) sequencia.

Não há realmente crescimento narrativo ou estético dentro de O Mestre. Consequentemente não há também fora dele, quando comparado aos outros filmes da carreira de Anderson. É bonito o bastante pra ser visto uma vez, e talvez uma segunda visita em alguns segmentos seja uma ideia interessante. Mas não pretendo tentar tão cedo.

O Mestre
The Master
Estados Unidos – 2012
Direção: Paul Thomas Anderson

Anúncios