O Amante da Rainha

por Márcio Andrade

“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las” (Voltaire)

A sentença acima pertence a um dos pilares do movimento iluminista, responsável por tentar desenvolver o lado mais racional, científico do Homem, em detrimento das explicações pela fé repetidas ad infinitum pelos eclesiásticos. Homens como este modificaram drasticamente o modo como se concebia a politica no período que, posteriormente, ficou conhecido como Idade Moderna.

Seria a democracia uma ilusão? É possível ao homem ignorar os interesses particulares em favor do bem coletivo? Ou é justamente a partir destes interesses que se alcançam estes benefícios? Durante a Idade Média, o domínio da nobreza e da Igreja preponderavam diante das decisões necessárias para manutenção do Estado, caracterizando um cenário em que o poder por meio do discurso hegemônico se sobrepunha aos restantes. Em O Amante da Rainha (2012, Nikolaj Arcel), mostra-se o início do game change que o Iluminismo viria a fazer com as ideias retrógradas no século XVIII.

Iniciando com o casamento da rainha da Inglaterra Caroline com o rei da Dinamarca Christian, fica claro desde o início que a relação deles estaria fadada ao fracasso, visto que o monarca apresentava sérios problemas psicológicos que o tornavam uma figura imprevisível, boçal e infantilizada. Com o tempo, a rainha começa a se frustrar cada vez mais com a vida na corte e se isola do esposo, até a chegada do Dr. Johann Struensee no reino para se tornar médico pessoal do rei a pedido de seu amigo Rantzau, que desejava adentrar à corte através da ascensão do clínico.

O longa acerta bastante ao problematizar a dupla relação que o médico estabelece no reino: de companheiro do rei e de amante com a rainha, invertendo constantemente os papéis de vítima e algoz. No desenrolar do enredo, o casal de amantes passa a usar a influência do médico sobre o rei para sugerir leis progressistas para o Conselho do reino – como a distribuição de vacinas contra varíola e a abolição da censura –, tornando o monarca tão marionete em suas mãos como ele o é para os membros do Conselho, mas servindo-se da justificativa do “bem do povo”. A virada mais relevante dentro do cenário que se constrói acontece quando o Conselho reage diante das atitudes do casal, distribuindo panfletos que expõem o adultério da rainha com o médico. Isto faz com que o casal restabeleça a censura novamente a fim de cessar os boatos, diante do que terminamos nos questionando: o desejo de democracia justifica as atitudes do casal?

Com um roteiro, de certa forma, intrincado e uma direção equilibrada, Arcel tem uma trinca de atores – Alicia Vikander, Mads Mikkelsen e Mikkel Boe Følsgaard – que vivem seus personagens com destreza e cuidado, pois expõem a complexidade de suas personalidades, tornando-os seres humanos e não arquétipos facilmente identificáveis, provocando constantes reviravoltas no modo como estas pessoas são vistas ao longo do enredo. Contando com uma direção de arte bastante sóbria e realista, Arcel emprega a fotografia para tornar os mesmos ambientes aconchegantes ou sufocantes simplesmente pela mudança na luz ou nos ângulos de câmera, tornando seu filme um estudo complexo sobre a relação entre o público e o privado no exercício da política. Mostra-se, na verdade, um filme bastante necessário em um período em que a política tem se tornado este jogo de popularidade em detrimento da competência, em que os jogos de marionetes tornam-se cada vez mais explícitos, em que pouco da verdade consegue vir à tona, mesmo com este transbordamento constante de informações. Na verdade, talvez por conta deste excesso de “fatos” entremeados por “pontos de vista” que muitos de nós desistam de entender melhor nosso tempo e optem por permanecer na ilusão, assim como Christian, que abraça seu “pai” e traidor, implorando para que este não confesse seu pecado, com medo de que a verdade lhe deixe sozinho e incapaz de lidar com o mundo adulto.

O Amante da Rainha
En Kongelig Affære
Dinamarca – 2012
Direção: Nikolaj Arcel

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