Caverna dos Sonhos Esquecidos

por Hudson Dal Ben

Em meu particular interesse pelos espaços – públicos e privados –, possivelmente a primeira pergunta que quase sempre me faço ao adentrar em determinado lugar é: quais memórias e lembranças guardam as paredes ao redor? No documentário Caverna dos Sonhos Esquecidos, é essa mesma pergunta que o cineasta alemão Werner Herzog se faz e parte em busca das respostas. Ele tem um achado em suas mãos: uma caverna no interior da França, na cidade de Ardèche, descoberta durante os anos noventa por um grupo de três exploradores – entre eles Jean-Marie Chauvet, cujo sobrenome batizou a caverna – e que guarda em seu interior restos mortais de animais do período paleolítico e pinturas rupestres que datam de trinta mil anos – mais antigas e tecnicamente ainda mais impressionantes que outras já conhecidas.

A descoberta, por si só já fascinante, que remonta a um período cheio de suposições e indícios que nos trazem até hoje, ganha ainda mais sentido com as imagens estarrecedoras no interior da caverna, que Herzog filma com extrema paixão e contemplação, deixando tudo ainda mais bonito – subtraindo o som quando necessário, dosando a luz (um próprio impedimento de se filmar num sítio arqueológico de tamanha proporção, com equipamentos nem sempre adequados) e montando com uma maturidade ímpar, imbuindo sua obra de um certo olhar místico, que volta e meia registra os planos da natureza ao redor, complementados por uma trilha sonora de cantos gregorianos que remete a uma certa “benção dos deuses”. Caminho este que ele atinge também com a sua própria narração em off, que traz um texto cheio de questionamento por vezes ironizadores mas sempre muito pungentes: será que a visão e o olhar dos homens que ali habitaram ou simplesmente transitaram, e seus registros do mundo externo, já eram os mesmos de quem hoje enxerga a imensa e bela paisagem ao redor? E essa resposta se trata de um mecanismo para encontrar na arqueologia algo complementar ao entendimento de quem somos hoje e nossa necessidade de nos comunicarmos ou é “mero” estado de admiração da arte? Em ambas as situações, Herzog se envereda pelo caminho da ciência e amplia seus argumentos com os discursos afinados de arqueólogos, paleontólogos e historiadores, que apresentam sempre uma nova informação rica em detalhes e minúcias – indo e voltando no tempo cronológico, estabelecendo critérios e associações importantes a respeito da passagem do homem sobre a superfície da Terra.

Com esse impressionante registro da Caverna Chouvet, Werner Herzog deixa pelo menos duas ou três coisas registradas: a primeira delas, de leitura aparentemente mais direta, é a necessidade do homem em registrar aquilo que o envolve e o conforma, talvez de modo a apreender e “guardar numa cápsula” a vida que o cerca; a segunda, é a capacidade única e intrínseca da própria arte, sempre que manipulada pelo seu criador, de registrar a vida e eternizar o momento, seja aquele acontecido há milhares de anos dentro da caverna de Ardèche ou o que acontece hoje e a agora com o próprio registro documental que Herzog deixa para o público, para a história; por fim, a conformação da ciência como instrumento inquestionável ao entendimento das mais diferentes esferas da vida humana, e o quanto esse racionalismo e objetividade trabalha em prol da apreciação de algo tão subjetivo e cheio de sentimentalidade quanto a arte.

Caverna dos Sonhos Esquecidos Werner Herzog, 2010

Anúncios