Além das Montanhas

por Bruno Barrenha

Durante a projeção de Além das Montanhas, tentamos controlar a revolta de nossos olhos a cada frame. Eis uma obra arrebatadora e, mais que isso, extremista. Partimos de um lado a outro da moeda em questão de segundos. Para entender melhor, temos como conflito algo tão moderno (um romance amoroso entre duas pessoas do mesmo sexo) que se passa em um local quase tão ultrapassado quanto a fossilizada opinião religiosa: um mosteiro ortodoxo, literalmente, além das montanhas.

Cristian Mungiu, o diretor e roteirista, já havia firmado em 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (com o qual ganhara a Palma de Ouro, em Cannes, no ano de 2007) o seu grito para outra questão ainda atual e polêmica, o aborto. Desta vez, toca mais a fundo na ferida, envolvendo como tema a igreja – o que já é, certamente, um pedido para controvérsias. Além disso, ele pende a um estilo mais autêntico e natural, apostando na peculiar “câmera na mão”, tentando demonstrar que aquilo sendo projetado para nós é a pura realidade, e não uma ficção.

Logo no primeiro plano, com cerca de 2 minutos, sem cortes, e sendo um dos mais vastos da obra inteira (no sentido de podermos nos aprofundar dentro dele), desvendamos significados e camadas técnicas invejáveis: 1) a personagem Voichita (Cosmina Stratan), de roupas negras, é a única a caminhar em direção oposta a todas as outras pessoas que passam ao seu lado; 2) ela está de costas para a câmera, como se nem por esta fosse querida; 3) enquanto abraça a parceira Alina (Cristina Flutur), o som do trem se aproxima cada vez mais, chegando a ser apavorante, o que é um puro reflexo da relação tumultuosa entre as duas; 4) quando Voichita solta a frase “Alina, me solte, as pessoas estão olhando…”, mostra-se a conversão da mesma em alguém totalmente preso à sua religião, que não foge a nenhuma regra de Deus e que tenta disfarçar tal comportamento impondo a culpa nas pessoas, por não aceitarem tal relação.

E já que as personagens foram apresentadas, a história logo dá as caras em passos lentos, caminhando para tons contemplativos. O roteiro ganha a intensidade necessária (e o merecimento do prêmio em Cannes, junto com a dupla de atrizes) quando há a colisão entre as mulheres e a Igreja, impressa na imagem do Padre (Valeriu Andriuta). Distantes um dos outros, mas tão pertos, as marcas psicológicas entram em cena e nos atingem cada vez em maior escala; as paranoias de Alina tornam-se constantes, visto que sua condição é de prisão, pois as leis do convento chocam e quebram o limite do absurdo para ela. Seu objetivo de fugir com a ex-amante, Voichita, é esmagado pela força com que a Igreja age nela, o que causa constrangimento e sérios problemas (sérios até demais!) para Alina.

Assim, consequentemente, quando Mungiu oferece aos seus espectadores a crueldade da vida, ele também é cruel… E de modo proposital, tanto que busca esconder ao máximo algumas informações vitais para que nós mesmos interpretemos; isto é, evitam-se ações exageradas, as quais seriam dadas de “mão beijada”, para que se fortaleçam conclusões e opiniões próprias de quem assiste.

Não deixa de ser um recurso que, sem dúvida, coloca o filme em outro patamar: além das montanhas, quem sabe…

Além das Montanhas
Dupa Dealuri
Romênia – 2012
Direção: Cristian Mungiu