A Hora Mais Escura

por Tiago Ramos

Em 2010, Kathryn Bigelow tornou-se a primeira mulher a vencer um prémio de Melhor Realizadora nos Óscares e nos Directors Guild Awards, com Guerra ao Terror. Um dado marcante num mundo dominado pelos homens, mas que talvez fosse menosprezado se a temática da sua filmografia não fosse tão dominada pela testosterona como esta. Esse ano a diretora regressou a esse mundo repleto de ação e adrenalina, se afirmando como uma das diretoras mais corajosas da atualidade (e não só quando comparada com outras mulheres).

Em A Hora Mais Escura assume-se uma assertividade e objetividade bastante rara no cinema contemporânea, tornando filme como um dos mais políticos e importantes filmes da década, concretizado num tom frio e clínico. Começa logo com aquela tela negra, emocionalmente devastadora, enquanto ouvimos gritos e telefonemas aos familiares, das vítimas do atentato ao World Trade Center, em 2001. Aí partimos para a objetividade, com uma câmara à mão que quase parece fundir documentário e ficção e numa sequência intensa de tortura (e que criou bastante polémica por todo o mundo). Mas facilmente nos apercebemos que essa abordagem da diretora é tudo menos exploradora ou propagandista. Muito pelo contrário, a câmara de Kathryn Bigelow é densa, crua e detalhada na forma como aborda os fatos (?), indo além de uma mera produção patriótica, subvertendo precisamente os valores e ideais norte-americanos.

Trabalho virtuoso e realista, bem complementado a nível técnico pela direção de fotografia de Greig Fraser e pelo incrível trabalho de design sonoro, A Hora Mais Escura sente-se como pensada ao mínimo detalhe, por vezes a um nível de quase recriação de um complexo relatório militar. Um detalhe que termina numa brilhante sequência que se faz valer de todo o talento da diretora bem como da equipa técnica, com grandes planos aéreos, câmeras de infravermelhos, planos de câmera tremidos e sufocantes, com uma tensão e adrenalinas constantes e que faz valer todo o investimento no filme.

Jessica Chastain é também brilhante na sua composição única de uma personagem feminina, proeminente num universo habitualmente de homens (assimo como a diretora). Um trabalho rico e de profunda premeditação, com uma personagem que subverte também as expetativas do espetador, com a sua aparência física (aparentemente frágil) a diferenciar-se do caráter frio, objetivo e intenso que só vai evoluindo ao longo da trama. Destaque ainda para o elenco secundário, especialmente Jason Clarke e Jennifer Ehle, que se harmonizam com a protagonista e a restante narrativa.

Apesar de todas as críticas, não deveria estar em causa aqui a polémica pró-tortura. Não é isso que interessa ao espetador, nem foi isso que interessou a Kathryn Bigelow. Aliás, a objetividade e análise de todo o trabalho é tão forte que permanece frequentemente acima de todo o caráter de julgamento ou de juízo de valor. Aquilo que importa destacar aqui é o mérito de uma das produções mais corajosas dos últimos anos.

A Hora Mais Escura
Zero Dark Thirty
EUA – 2012
Direção: Kathryn Bigelow