Detona Ralph

por Ana Clara Matta

Anteriormente ao surgimento do videogame, o cinema se encontrava em uma posição extremamente confortável e consolidada no âmbito dos diálogos com outras artes. As provas magnas da solidez e do domínio desses diálogos está no grande número, desde a era de ouro de Hollywood, de musicais com canto e dança, adaptações literárias e dramatúrgicas, filmes biográficos de pintores e artistas plásticos. Em meados dos anos 80 o cinema então trombou, desavisado, com dois formas de expressão narrativa/visual, não reconhecidas (ainda) necessariamente como artes, mas que logo tomariam conta de um dos mais lucrativos públicos-alvo do cinema mainstream: os adolescentes.

Essas formas eram as histórias em quadrinhos e o videogame, e os primeiros filmes que firmaram esse diálogo, travaram essa batalha com respeito ao material de origem, foram Tron (1982), de Steven Lisberger e Superman (1978), de Richard Donner. É claro que os quadrinhos já possuiam força como indústria própria há décadas, e a adaptação do cinema a eles foi muito mais rápida e efetiva. O videogame continua um meio estranho ao cinema, que gera resultados e confrontos desajeitados e muitas vezes constrangedores.

Os games estão fazendo a sua parte e seguindo narrativas cada vez mais cinematográficas (e os filmes de ação recentes como Jack, o Caçador de Gigantes parecem cada vez mais com videogames despidos de sua interatividade). Mas e o diálogo direto? Por que ninguém consegue adaptar o videogame para o cinema? A Disney encontrou a saída para os roteiros planos, bidimensionais dos filmes anteriores que travavam esse diálogo, em uma saída que o videogame já abraçou há longos tempos: a inversão do vilão para o herói (ou anti-herói). Detona Ralph é assim, revisionista dos primeiros jogos maniqueístas de videogame, espetacularmente nostálgico para os que acompanharam a evolução dos consoles e marca um reencontro da Disney com a doçura de seus primeiros contos. Tudo isso em um pacote que empresta a acidez da Dreamworks e os questionamentos da Pixar.

A sociedade da vitória e da recompensa, que exclui da brincadeira o que fica em último lugar, é a mãe do fliperama e é totalmente subvertida em Detona Ralph. Seus heróis são o vilão Ralph e o “erro de programação” Vanellope, os dois “elementos indesejáveis” de um jogo eletrônico, e é para eles que nós torcemos, no universo Disney sempre tão celebrador do “underdog” vitorioso. Ralph tem problemas de ritmo e alguns catalisadores duvidosos (especialmente os centrados no jogo “Hero’s Duty” e no ataque alienígena) mas traz personagens carismáticos, que acompanham perfeitamente as características e peculiaridades de seus dubladores.

A Disney alimentou e se uniu à força que um dia ameaçou o seu estilo, fofo e inocente, de produzir animações e em 2012 as fronteiras entre a Pixar e sua empresa-mãe se tornaram completamente obsoletas. A Pixar reinventou o gênero “Princesa Disney” com sua jovem feminista Merida e a Disney assumiu o estilo cheio de referências direcionadas a adultos. Mas a revolução da Disney, em filmes como Ralph, Encantada e Os Muppets, é auto-referente, auto-consciente e auto-reverente. Ela se adapta, não se destrói e reconstrói. O império de Walt está seguro.

Detona Ralph
Wreck It Ralph
EUA – 2013
Direção: Rich Moore