Meu Namorado é um Zumbi

por Vinícius Bezerra Brandão

Em tempos pós Harry Potter e Crepúsculo, existe uma busca pela próxima “saga” de culto jovem. Na corrida, algumas franquias já saíram na frente, como Percy Jackson, que já está com o segundo filme em produção. Um livro chamado Sangue Quente surgiu discreto. O público alvo é diferente, apesar de possuir trama semelhante. A adaptação para os cinemas ganhou nome nacional alterado e publicidade voltada para o público órfão do romance fantástico da Stephanie Meyer.

Meu Namorado é um Zumbi acompanha o zumbi “R”, que não lembra seu nome completo, apenas a letra inicial. Para falar a verdade, R não lembra de nada de sua vida anterior. Apenas tenta se apegar ao que sobrou de sua humanidade, seja reunindo objetos com seus diferentes significados, seja comendo seres humanos. Na sua busca por alimento, acaba se apaixonando por uma humana e vai aos poucos se curando de sua condição.

Difícil não comparar com Crepúsculo. Troca os vampiros por zumbis. Mas vai um pouco além. Lá, as condições de vampiro eram altamente questionáveis, aqui o zumbi está presente quase sem alterações. O filme, assim como o livro, constrói em cima das mitologias conhecidas sobre os monstros. Eles têm motivação para suas ações como monstros e camadas de detalhamento para suas condições.

R deixa claro que não quer nem tem prazer em matar as pessoas. Mata suas vítimas em busca de seus cérebros. Cada mordida em um cérebro humano dá para os zumbis uma carga de sentimentos, emoções e lembranças. É algo valoroso para uma criatura morta, que não sente mais nada, nem lembra de sua humanidade. Tão valoroso que vicia os mortos-vivos.

A partir do momento em que um zumbi abandona completamente toda e qualquer humanidade, ele passa para o nível do que o R chama de esqueléticos. Suas peles caem e viram apenas ossos e músculos capazes de comer qualquer coisa, sem objetivo. Eles chegam a meter medo nos próprios zumbis.

Tendo criado uma mitologia tão rica e interessante, o filme investe em uma jornada. O romance entre o R e sua humana, Julie, não é o foco. O importante é a jornada de transformação de R. A cada dia em que R busca o contato com a garota, mais ele se afasta de suas características de monstro. Começa com a tentativa de mantê-la por perto, R começa a conseguir expressar algumas palavras e sentimentos, seu rosto começa a revelar mais do que a indiferença e a fome. Seus movimentos ficam mais naturais, partes de seu corpo perdem suas travas e a cor vai voltando aos poucos para sua pele.

Não acontece repentinamente. É um processo longo e demorado, cheio de nuances. É um mérito do ator Nicolas Hout, que cria essa transformação com detalhes cuidadosos. Aqui ele tira um pouco dos ruídos, ali ele coloca um pouco mais de movimento com os olhos. Soma-se a isso a maquiagem e a fotografia. Quanto mais perto de ser humano, mais a luz vai ficando quente e colorida. Quanto mais próximo do mundo dos esqueléticos, mais monocromático e cheio de sombras.

Por outro lado, o filme se perde dentro de seus vários gêneros. Em diversas partes é comédia, em outras é romance. Aqui e ali tem elementos de drama e terror. A comédia é bem-vinda para quebrar as comparações à franquia dos vampiros que brilham à luz do Sol. Mas ela também quebra o ritmo da transformação do protagonista.

Em certo ponto, R se alimenta de um cérebro e experimenta a memória da morte de sua vítima. Ou seja, vê a si mesmo mordendo e matando a pessoa em seus últimos momentos. R sente repulsa de si mesmo e do órgão no qual é viciado. É ali o momento em que escolhe ir contra sua natureza. Um pouco menos de comicidade em tais contextos seria recomendável.

Daí surgem problemas sérios de roteiro, com falha de continuidade e cenas fora de lugar. Mas o grande defeito reside no terceiro ato. Subitamente, a trama deixa de ser sobre a humanidade de R e passa a ser sobre o romance. Poderia ser muito mais.

Meu Namorado é um Zumbi, Jonathan Levine

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