Lincoln

A influência do cinema de John Ford e a reflexão sobre a democracia moderna em Lincoln, de Steven Spielberg
por Jefferson Assunção

Em certo momento do documentário Directed by John Ford (1971/2006), de Peter Bogdanovich, Steven Spielberg conta que, quando tinha quinze anos, visitou o escritório de Ford nos estúdios da Paramount. Segundo relata, ele disse ao velho realizador de westerns que gostaria de se tornar um diretor de cinema após se formar no colégio. Ford o mandou observar alguns quadros no escritório com pinturas de cenários do Velho Oeste e perguntou diante de cada um onde se localizava o horizonte. Após isso, Ford disse a Spielberg: “quando você chegar à conclusão de que colocar o horizonte na parte de baixo ou de cima do enquadramento é melhor do que no meio, então talvez algum dia você seja um bom diretor de cinema. Dê o fora daqui.”

Essa pequena história serve para ilustrar a busca de Spielberg nos últimos anos em fazer um cinema cada vez mais próximo do de seus mestres. De todos os cineastas da chamada Nova Hollywood, Spielberg é o que mais guarda influências do cinema clássico, quer sejam diretas, ao referenciar John Ford ou Cecil B. DeMille, ou indiretas – como é o caso da série Indiana Jones, muito parecida com Os Nibelungos, de Fritz Lang. Não que os outros diretores da mesma geração (Brian De Palma, Francis Ford Coppola, George Lucas, Martin Scorsese e William Friedkin), não sejam influenciados pelos chamados pioneiros – o primeiro dos mencionados inclusive se utiliza de citações diretas de obras de Alfred Hitchcock em seus filmes –, porém, todos eles convergem com um estilo cinematográfico mais moderno, com uma visão de mundo distinta da dos realizadores classicistas.

De qualquer forma, Spielberg, além da referência óbvia a Ford em boa parte de sua filmografia, procurou em seus dois filmes mais recentes – Cavalo de Guerra (2011) e Lincoln (2012) – homenagear seu mestre. No primeiro tal fato é observado através da fotografia que rememora o antigo processo do technicolor utilizado em várias obras coloridas de Ford – como Ao Rufar dos Tambores (1939), Legião Invencível (1949), Depois do Vendaval (1952) e Rastros de Ódio (1956) –, bem como através dos enquadramentos, principalmente no tratamento dado ao horizonte, o que reflete a absorção da lição de seu mentor. Entretanto, Cavalo de Guerra, infelizmente, trata-se de um filme que recorre ao melodrama barato, algo que termina por sepultar qualquer tentativa de homenagem.

Lincoln se apresenta como uma das obras mais maduras do realizador nos últimos anos, por vários motivos, que vão desde a temática política até ao próprio tratamento da narrativa, que foge do melodrama e da ingenuidade de vários de seus filmes anteriores, inclusive aqueles que tratam de temas mais sérios. Spielberg prefere abordar a figura de Abraham Lincoln não de forma a criar uma biografia dele ou mesmo a heroizá-lo, mas sim falar do processo mais importante em sua vida política: a votação da décima-terceira emenda, que terminaria com a escravidão e, conseqüentemente, com a Guerra Civil entre o Norte libertador e moderno e o Sul escravocrata e tradicionalista, conflito esse que se arrastava há alguns anos.

Ao contrário de Ford – que em A Mocidade de Lincoln (1939) retratava a juventude do então advogado e futuro presidente dos EUA na cidade de Springfield, através de um estilo elegíaco –, Spielberg prefere tomar um distanciamento histórico que é necessário para o tema maior discutido: a democracia e todos os seus processos espúrios, muitas vezes necessários para se chegar a uma vitória. O Lincoln de Spielberg é um homem integral, construído a partir de seus defeitos e qualidades, ou seja, um ser humano comum, capaz de atos questionáveis para atingir seus objetivos, pois ele teve de se valer de alianças escusas para conseguir aprovar a décima-terceira emenda e livrar o país da escravidão. Dessa forma, Spielberg trata esse fato problematizando-o e levando o espectador à reflexão sobre os caminhos da democracia moderna, com uma abordagem lamuriosa que confere ao filme um caráter epopéico (no sentido de grandioso e não de heróico) e de espetáculo.

Lincoln
Lincoln
Estados Unidos – 2012
Direção: Steven Spielberg