O Último Desafio

A sublimação da descerebração

por Nery Nader Jr.

O ano? 1986. Em uma cidadezinha interiorana, um adolescente, diante de um videocassete bipartido, acompanha as proezas de John Matrix, que destrói tudo e mais um pouco só para salvar a filha. O jovem vibra (internamente), mas por fora torce o nariz, dizendo para os amigos – que obviamente não hesitam em concordar – que tudo foi muito forçado e bobo.

O ano? 2013. Em uma grande metrópole, um homem sai do cinema vibrando com as proezas de Ray Owens, que destrói tudo e mais um pouco só para prender um traficante foragido. A sensação é familiar, mas a afirmação pessoal é muito diferente.

Afinal, o que mudou, em pouco mais de vinte e poucos anos, para que esta pessoa (sim, estou falando da mesma pessoa e sim, esse cara sou eu) decida assumir sem medo que os filmes de Arnold Schwarzenegger são bons demais (e não apenas os que são bons de verdade)?

O que mudou para que finalmente eu admita publicamente que tanto “Comando para Matar” quanto “O Último Desafio” são, indiscutivelmente, pequenas pérolas porcas?

Obviamente, o universo cinéfilo mudou. E muito. Passou inclusive a cultuar, cada vez mais, as fitas descerebradas da década de 80. Mas não é porque o mundo passou a aceitar melhor estes filmes que eu automaticamente passei a aceitá-los também. Na realidade a minha aceitação se deu quando da descoberta de que filmes assim fazem bem. Pelo menos para mim. São inócuos e ocos, é verdade, mas proporcionam um prazer genuíno e despretensioso que eu sempre prezei, mas não admitia publicamente. E talvez nem mesmo para mim mesmo.

Gosto de pensar que evolui. Ou regredi. Tanto faz. O fato é que agora eu posso falar bem de O Último Desafio. Até porque o filme é realmente muito bom.

Primeiro porque ele vai além das “reuniões de estrelas da pancadaria”, como Os Mercenários e sua continuação – que são bons, mas que já de cara exigem uma certa indulgência da plateia. O Último Desafio não age assim. Ele é tão somente um filme do Schwarzenegger e que só o Schwarzenegger poderia fazer. E ainda enfatiza, com muito bom humor, que o Governator está “too old for this shit”. Além disso, bebe de todos os clichês do gênero, mas o faz com charme e criatividade, abusando ainda de bordões legais e de sequências realmente eletrizantes. E o melhor: não se leva a sério em momento algum. O elenco se apresenta coeso e a ação é muito bem engendrada, com efeitos especiais decentes e um ritmo totalmente consistente. E se o roteiro é esburacado, nada melhor do que passar por cima dos furos com um Corvette, um Camaro ou mesmo um ônibus escolar.

Por tudo isso, considero O Último Desafio como o mais sério candidato a melhor filme de ação dos anos 80 fora dos anos 80.

O Último Desafio
The Last Stand
Estados Unidos – 2013
Direção: Jee-woon Kim