Drive

Drive, por Ronald Perrone

Drive marca um interessante debut de um diretor europeu em Hollywood. Com cinco minutos de filme o dinamarquês Nicolas Winding Refn transforma uma perseguição de carros em uma obra-prima e demonstra que não se tornou um “pau mandado” dos executivos americanos. E Ryan Gosling se deu bem, aproveitando-se de um personagen interessante e enigmático. Um herói de faroeste sem passado, que vive deslocado da sociedade moderna, um motorista de fuga para meliantes, dublê de cenas automobilísticas em Hollywood, de rosto sempre calmo, sereno e tranquilo, e um palito de dente no canto da boca. Nas horas vagas, relaciona-se com sua vizinha Carey Mulligan, e seu filho. Ele é tão legal com o garoto que até lhe oferece um palito de dente. Depois, entra em ponto de bala para cima de uma organização mafiosa. Num dos melhores momentos de Drive, ele pressente o perigo dentro de um elevador, dá um longo beijo em sua protegida e, logo em seguida, pisoteia a cabeça de um assassino até esmagá-la. A cena vai do sublime ao grotesco em questão de segundos, e causa efeitos perturbadores. Nada melhor que um pouco de romance e violência para que Refn desenvolva seu conto de fadas para adultos, conduzido com consciência de quem sabe o que faz. E ainda sobra tempo para reverenciar Walter Hill, Michael Mann e o cinema de ação da virada da década de 70.

Holy Motors

Holy Motors, por Rafael Carvalho

Pela faceta múltipla de direções, Holy Motors é um filme de identidades, evidenciando a obstinação do próprio cinema em contar histórias, possíveis e inimagináveis. O camaleão de Denis Lavant realiza um passeio pelas possibilidades da narrativa, revivendo gêneros e situações as mais incomuns, matéria-prima das boas histórias. Um exercício evidente de encenação; mas, como metalinguagem do próprio ato cinematográfico, uma carta de intenções a favor das necessidades do narrar, por e estar em cena. Depois de tanto tempo de imagens acumuladas pela história do cinema, ainda nos surpreendemos. Ainda queremos ver muita coisa.

A Invenção de Hugo Cabret

A Invenção de Hugo Cabret, por Carlos Massari

Martin Scorsese é o homem da máfia, dos anti-heróis, do mundo do crime. É um dos grandes contadores de estórias através das imagens que já existiram. E, sobretudo, é um apaixonado pela sua arte, o cinema. Em Hugo, não temos máfia, nem anti-heróis, nem mundo do crime. Quer dizer, talvez tenhamos pequenos, singelos crimes, mas o que existe muito é o cinema. Hugo é a grande homenagem de scorsese àquela sua grande paixão, àquela nossa grande paixão. Por um lado, uma aula de história de cinema. Por outro, uma gigante declaração de amor. Crianças e adultos que podem ficar muito mais entretidos por duas horas e meia que qualquer universitário ouvindo sobre Mêlies de algum professor burocrático. Hugo é uma obra-prima porque Scorsese é tão apaixonado pelo cinema como Meliès era.

Mistérios de isboa

Mistérios de Lisboa, por Filipe Furtado

“Começou como um jogo e terminou um melodrama burguês”, é assim que um dos personagens centrais de Mistérios de Lisboa descreve sua relação com uma ex-amante vingativa. Tudo em aqui é um jogo e também um “melodrama burguês”. É uma cartografia de ficções que a cada recurso de distanciamento mais se aproxima do seu drama. É um jogo onde as narrativas se sucedem, as identidades dos personagens deslizam rumo a novas personas, e os duplos se multiplicam. Nenhuma história é única, mas nenhuma história é a mesma. Mistérios de Lisboa não é um filme tanto quanto a história de muitos outros filmes, sendo cada uma delase plenamente capazes de sustentar 100 minutos próprios. São quase todas variações sobre a mesma história de amores fracassados e vidas de uma forma ou outra desperdiçadas (amores de perdição, para ficarmos no título de outro romance de Camilo Castelo Branco), mas não por isso menos intensas. Há um conforto no romanesco, na intensidade da ficção, que redime os maiores infortúnios. Qualquer outro filme sobre este mesmo material se afirmaria como uma crônica de desgraças, mas o que temos diante de nós é seu perfeito oposto: um catálogo de prazeres que só o engenho da ficção é capaz de nos proporcionar.

A Separação

A Separação, por Mauricio Ribeiro

Entre pobres e ricos, agnósticos e religiosos, Asghar Farhadi funde duas historias e desse confronto, cria um retrato penetrante de desconforto e medo generalizado. Um filme onde todos chantageiam todos. Uma projeção de verso e reverso, luz e escuridão, razão e paixão. E cena após cena, novos detalhes são adicionados, o que muda toda a perspectiva de tudo. Particularmente notável, o roteiro não toma partido de nenhum dos personagens, pelo contrário, todos estão certos e errados, presos em uma teia de orgulho e ego, moralidade e religião, dinheiro e honra. E sempre com essa porta de vidro para separa-los.