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Charles Chaplin

1 Luzes da Cidade
(City Lights)
Charles Chaplin, 1932
670 pontos
26 votos
4 poles



“Gênio da criatividade, Charles Chaplin também o foi na ousadia, ao teimar em fazer um filme mudo em pleno 1931 (quando todos nos EUA queriam distância do passado tão recente do cinema mudo), e também ao ignorar todos os preceitos do cinema industrial, ao parar a produção por meses, até lapidar a sua obra como queria, como se fosse um escultor cinematográfico. Com Luzes da Cidade Chaplin provou que não estava nada inclinado a renegar a si mesmo, lembrando ainda àqueles recém-mumificados diretores de teatro filmado (o cinema mesmo só voltaria a existir poucos anos depois) a força de uma imagem, que não precisava e nunca precisou de microfone para causar impacto. E sem diálogo nenhum criou (mais) um filme mágico, simples e contundente, com um dos finais mais belos da História do Cinema, uma prova em celulóide tão definitiva de que uma imagem vale mais que mil palavras, que até uma cega conseguiu ver” (Marcelo Rennó, Movieland).



Fritz Lang

2 M, o Vampiro de Dusseldorf
(M)
Fritz Lang, 1931
611 pontos
24 votos
3 poles



“Uma cidade em pânico. Um assassino à solta. M, o vampiro de Dusseldorf. Não era preciso muito mais do que isso para chamar minha atenção, no auge de minha adolescência. Fritz Lang, no entanto, fez mais, muito mais: um protagonista monstro, que só se deixa ver por suas silhuetas e clama por nossa compaixão; Peter Lorre, em uma das maiores atuações da história do cinema; a presença fantasmática do assassino anunciada por um assobio sinistro, porém doce; a cidade, que nada mais é do que um jogo entre o claro e o escuro que nivela a ordem burguesa e moral dos criminosos. Lorre me grita: “Eu não consigo me controlar!” M não é somente a letra inicial de Mörder (assassino), é também o sinal que todos nós trazemos (cada um a sua maneira) em nossas mãos, na junção de nossas linhas de vida. Eu, menino, imaginava um mundo dividido entre o bem e o mal. E lá veio Lang me dizer que todos nós estamos no mesmo saco, sujeitos à desgraça, às voltas com forças que não entendemos, nem controlamos” (Julio Bezerra).



Charles Chaplin

3 Tempos Modernos
(Modern Times)
Charles Chaplin, 1936
567 pontos
23 votos
5 poles



“Poucos criadores tiveram a capacidade de Charles Chaplin de criar tantas imagens icônicas. A cena de Carlitos entre as engrenagens de um grande maquinário virou uma das grandes marcas de um dos maiores nomes do cinema, reconhecível até por quem nunca assistiu a Tempos Modernos, um de seus melhores filmes. Mas restrigir a importância do longa-metragem de 1936 a esse momento é reduzir uma das obras mais impactantes de Chaplin, atual mesmo depois de sete décadas. Numa de suas derradeiras produções sem o uso de um sistema de som, o adorável vagabundo representa um trabalhador de fábrica que tem um colapso nervoso pelo excesso de trabalho e é internado num sanatório. Na saída, ele é confundido com um comunista e se torna líder de uma marcha de operários em protesto. Obrigatório não apenas para quem ama o cinema, Tempos Modernos foi lançado na onda de pessimismo mundial com a “Grande Depressão” de 1929 – um tema importante de se resgatar em época de crise econômica. Carlitos, como sempre, consegue fazer rir mesmo quando faltam motivos” (Edson Burg, Pipoqueira).



John Ford

4 No Tempo das Diligências
(Stagecoach)
John Ford, 1939
432 pontos
19 votos
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No Tempo das Diligências‘ não é apenas um dos melhores faroestes de todos os tempos. Dirigido por John Ford e estrelado por John Wayne, o filme ajudou a resgatar o prestígio do gênero junto aos grandes estúdios, depois dos prejuízos com A Grande Jornada (1930) e Cimarron (1931). A história de uma carruagem que atravessa o deserto na iminência de ser atacada por um bando de índios ganha contornos mais dramáticos quando se analisa o perfil dos seus ocupantes: uma prostituta, um beberrão, um vendedor de uísques, um jogador de cartas, a esposa de um soldado, um banqueiro, um cocheiro, um xerife e um prisioneiro. Ao colocar juntas, dentro de um espaço diminuto, personagens tão social e moralmente distintas, o diretor transforma a diligência num micro-universo da alma humana, onde valores e aparências batem de frente e mostram-se tão explosivos quanto as batalhas que estão prestes a acontecer do lado de fora” (Demas).



Victor Fleming

5 O Mágico de Oz
(The Wizard of Oz)
Victor Fleming, 1939
416 pontos
19 votos
1 pole



“Era uma vez um lugar além do arco-íris, onde havia uma estrada com tijolos amarelos, no qual uma linda garotinha chamada Dorothy chegou, encantando aos seres mágicos do lugar. Ela fez novos amigos, ajudou um espantalho a encontrar a inteligência que tanto buscava, fez um homem de lata chorar e se emocionar, incitou um leão covarde a lutar e encher-se de coragem. Este mundo encantado que apesar de sua complicada construção nos bastidores, passando pelas mãos de quatro diretores, não chegou a comprometer o resultado brilhante no qual a obra resultou, graças aos talentos da equipe técnica e dos atores envolvidos no projeto. A encantadora Judy Garland (1922-1969) emocionou jovens e adultos com a bela canção “Over the Rainbow” premiada com o oscar. Um clássico absoluto onde a arte e a magia do cinema podem ser vistas e sentidas em toda a sua plenitude” (Wendell Borges).



Jean Renoir

6 A Regra do Jogo
(La Régle du Jeu)
Jean Renoir, 1939
414 pontos
15 votos
4 poles



“Reza a lenda que, quando de seu lançamento, os espectadores destruíram as poltronas da sala de cinema onde era exibido em Paris. O mundo estava à beira da Segunda Guerra Mundial e os franceses simplesmente não engoliram aquela história sobre um bando de ricaços decadentes, isolados em uma casa de campo e mais preocupados com seus joguinhos amorosos do que com qualquer outra coisa. Mas é claro que um cineasta genial como Jean Renoir não realizaria algo tão pueril. Nesse sentido, A Regra do Jogo pode ser entendido como uma espécie de elegia para um mundo que estava com seus dias contados. Visto hoje, impressiona pela sua fluência e atemporalidade” (André de Leones).



Howard Hawks

7 Scarface – A Vergonha de uma Nação
(Scarface – The Shame of a Nation)
Howard Hawks, 1932
404 pontos
19 votos
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“Se William Shakespeare tivesse vivido nos anos 1930, certamente teria escrito o roteiro de Scarface junto com Ben Hecht. Tony Camonte é o Ricardo III do submundo. Sua ambição de poder total e absoluto é tão forte que ultrapassa o caráter moral e se estende até a deformidade física. Camonte é ainda um Macbeth da sarjeta, corroído por um ciúme incontrolável e explosivo. Antes de Scarface, o cinema nunca tinha sido tão violento. Entretanto, mais impressionante que as 28 mortes que acontecem no filme é a violência interna destruidora e consequentemente autodestrutiva do personagem de Paul Muni. Nada resume melhor Tony Camonte que a publicidade da Cook’s Tours no meio de uma cena: The world is yours” (Ana Paul, Ana Paul’s Multiply Page).



Victor Fleming

8 …E o Vento Levou
(Gone with the Wind)
Victor Fleming, 1939
365 pontos
14 votos
4 poles



“Marco definitivo da Era de Ouro de Hollywood (mesmo que tenha sido fruto de um produtor independente, David O. Selznick) foi o marco inicial dos épicos, possuindo todas as características do gênero, em sua melhor forma. Possui cores estonteantes, uma trilha musical marcante, um ritmo impressionante que faz as quase quatro horas passarem voando, sets enormes, e um grande elenco. O que mais permanece com o espectador, porém, é a magnífica atuação de Vivien Leigh, defendendo com unhas e dentes sua personagem, uma heroína feminista por excelência – com toda polêmica que o termo pode causar -, tendo de perder a pose de dondoca e passar a passar por cima dos homens, da sociedade, dos amigos e da própria família para conseguir seus objetivos” (Mateus Nagime, Cinema, Mon Amour).



Mário Peixoto

9 Limite
(Limite)
Mário Peixoto, 1931
338 pontos
15 votos
2 poles



“Embora já se tenha admitido o fim da ‘aura’ da obra de arte, com o surgimento da reprodutibilidade técnica das representações artísticas (a fotografia e, por conseguinte, o cinema), é difícil dissociar Limite dessa palavra mágica. Primeiro, porque o filme de Mário Peixoto nunca foi exibido comercialmente e, portanto, sempre se manteve como mito, como algo envolto em brumas e a ser desvendado. Num outro sentido, o caráter aurático de Limite vem de sua força imagética na representação, da síntese produzida pelo fio de narrativa, do campo extra-fílmico, com todas as histórias que cercam a sensibilidade de Mario Peixoto e da transformação do espaço real Mangaratiba em território mítico e cinematográfico. Limite é a pérola do cinema brasileiro: única, valiosa e vista por poucos. Por outro lado, nenhum texto que fale de Limite, tampouco este, traduz a experiência sensorial do mais belo filme da história do cinema brasileiro” (Eduardo Miranda).



Jean Vigo

10 O Atalante
(L’Atalante)
Jean Vigo, 1934
329 pontos
13 votos
1 pole



“O último filme de Jean Vigo é sobre o que de mais sagrado e belo pode acontecer com o ser humano: a união de um homem e uma mulher, o amor, o casamento. E também o convívio inicial, a lua-de-mel na barca dos amantes do navio L’Atalante, a amarga descoberta das diferenças de personalidade e oposição entre os sexos, os atritos, brigas e reconciliações. O que faz de O Atalante uma obra-prima é que Jean Vigo nunca é piegas ou sentimental com tema tão romântico, mas transcendental e anárquico como os surrealistas da geração imediatamente anterior a sua. O seu filme é um inventário de imagens poéticas como a caminhada da noiva em direção ao L’Atalante, ou a densa visão do nevoeiro no convés do barco sob uma iluminação fantasmagórica e noturna; mais adiante, o casal andando pelas ruas de Paris, e o fascínio que a Cidade-Luz exerce na mulher que se divide entre a vida comum com o marido na barca marítima ou a sedução de uma existência incerta na maravilhosa capital francesa. Também o mergulho do protagonista que vê na água do canal o rosto da esposa desaparecida. Ou os corpos dos dois amantes separados e se debatendo de um lado para o outro em suas respectivas camas, carregados com a mesma excitação e cheios de saudades do cônjuge. Feliz de quem se enxerga ou se reconhece em O Atalante” (Vlademir Lazo).



Aconteceu Naquela Noite

11 Aconteceu Naquela Noite
(It Happened One Night)
Frank Capra, 1934
282 pontos
14 votos
1 pole



“Dizem que, se começamos elogiando a fotografia de um filme, é porque as suas qualidades não vão muito além disso. O que dizer então de um elogio à iluminação de um filme? Bem… depende da iluminação. Aconteceu Naquela Noite, por exemplo, brilha com uma luz totalmente singular. Uma luz capaz de iluminar nossas vidas, de devolver o brilho das coisas, de resgatar sorrisos e romantismos e pieguices afins. Um dom característico do bom e velho Capra. Neste caso ancorado pelo talento canastrão de Gable em seu, talvez, melhor papel. E pela leveza interpretativa de Colbert. E, finalmente, pelo cérebro feito pedra de amolar de Robert Riskin, capaz de lapidar e de nos entregar diálogos afiadíssimos, cortantes e deliciosos. É… não se fazem mais filmes assim. E também pra quê? Basta revermos esta pequena e otimista obra-prima para deixarmos de lado os filmes que não são assim. Ou até mesmo os bastidores conturbados de filmes assim. O brilho de um Aconteceu Naquela Noite é bem maior do que estas pequenices. E vai durar para sempre” (William Wilson).



King Kong

12 King Kong
(King Kong)
Merian C. Cooper e Ernest B. Shoedshack, 1933
282 pontos
13 votos
sem poles



“Muito se credita a Tubarão (1975), de Steven Spielberg, a primazia de manter o suspense à flor da pele antes de mostrar seu grande e selvagem monstro. Pois, quatro décadas antes, lá estavam Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack ‘escondendo’ sua atração principal até quase a metade de um breve filme de 100 minutos. King Kong foi pioneiro numa série de elementos, desde o uso magnífico dos efeitos visuais revolucionários à alegoria da besta gigante que se apaixona pela bela indefesa, num autêntico exemplar de terror B. É talvez um dos maiores romances já filmados no cinema americano, e estamos falando de um filme cujo miolo é uma batalha colossal contra dinossauros e insetos gigantes, e o clímax é a batalha de um gorila contra aviões de guerra no topo do Empire State Building. Essa mágica só poderia acontecer numa produção como King Kong, que bancada pela RKO e muito beneficiada por uma certa inocência que ainda permitia ao cinema fantástico voar além do imaginável naquele período. Cooper e Schoedsack até deviam fazer ideia da obra-prima que realizavam, mas certamente não imaginavam que, quase 80 anos depois, ela ainda estaria sendo reverenciada e referenciada, sempre e cada vez apaixonadamente mais” (Marcelo Miranda, Blogs Polvo).



James Whale

13 A Noiva de Frankenstein
(The Bride of Frankenstein)
James Whale, 1935
244 pontos
12 votos
sem poles



A Noiva de Frankenstein é a melhor continuação picareta da História. James Whale relutou em fazer a sequencia de seu sucesso de quatro anos antes, um ícone do cinema de horror que popularizou Boris Karloff. Mas se rendeu aos apelos do estúdio com um adorável golpe: criar uma namorada para sua criatura. O resultado foi o improvável encontro entre o drama carregado pelo protagonista solitário, incompreendido, que vive à margem da sociedade que o obriga a matar, e uma comédia esquisita, algo como uma comédia de costumes com pitadas de humor negro. Um filme que, por suas particularidades, se sobrepõe à obra original, ganha caráter único. O casamento macabro em que a noiva aparece pela primeira vez é uma cena para se ver ajoelhado” (Chico Fireman, Filmes do Chico).



Jean Renoir

14 A Grande Ilusão
(La Grand Illusion)
Jean Renoir, 1937
226 pontos
10 votos
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“Este é considerado pela crítica em geral um dos mais importantes filmes franceses de todos os tempos e, por que não, um dos mais importantes de qualquer nacionalidade. Este é mais um clássico absoluto que, ainda hoje, muitas décadas depois do seu lançamento original, permanece sendo reconhecido e visto por platéias do mundo todo. Temas como disputas de classes (sim, mesmo em um campo de prisioneiros, Renoir consegue mostrar tal tema, e de forma perfeita), amizade, saudade, entre vários outros, povoam esta obra do realismo poético do diretor. Um filme obrigatório para quem quer conhecer um pouco mais a fundo a história do cinema e mesmo para quem é estudioso da alma humana e de como ela pode ficar sempre acima de tragédias como uma guerra de nível mundial” (Alexandre Koball, Cine Players).



Howard Haeks

15 Levada da Breca
(Bringing Up Baby)
Howard Hawks, 1938
213 pontos
10 votos
1 pole



“As boas comédias são para sempre. Por mais que o senso de humor possa mudar com o passar do tempo e tornar algumas obras difíceis de agradar a novas plateias, alguns filmes conseguem ficar eternos, como se a passagem do tempo não os interferisse. Assim é Levada da Breca, provavelmente a maior das comédias de Howard Hawks. E vale lembrar que estamos falando de um gigante. Para aqueles que não têm intimidade com o cinema do diretor, a comédia maluca sobre uma mulher que inferniza a vida de um homem é eficiente em causar risos e gargalhadas. Mas para aqueles que tem em Hawks um de seus cineastas preferidos, um verdadeiro autor, o filme vai muito além da simples diversão, vai além da obra bem construída. Pois Levada da Breca tem a cara de Hawks. A típica mulher hawksiana (Katharine Hepburn, perfeita), que é responsável pelos problemas do desorientado paleontólogo (Cary Grant, em estado de graça) é no fim responsável por sua felicidade. E o caminho da felicidade em algum momento deve passar por um grande filme de Hawks” (Ailton Monteiro, Diário de um Cinéfilo).



David Hand

16 Branca de Neve e os Sete Anões
(Snow White and the Seven Dwarfs)
David Hand, 1937
206 pontos
9 votos
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Branca de Neve e os Sete Anões não trata apenas de Branca de Neve e do Príncipe Encantado, mas também dos sete anões e da Rainha Má e de um sem-número de seres da floresta e dos céus, desde o pássaro azul que enrubesce até a tartaruga que passa a vida inteira tentando subir um lance de escadas.O que se vê é uma tela sempre brilhando e palpitando de movimento e invenção onde se insere a estória principal, apavorante como em todos os contos de fada, envolvendo a Rainha Má, o sinistro espelho Mágico, a maça envenenada, o sepultamento em uma urna de vidro, a tempestade de raios, a saliência rochosa e a queda fatal da rainha. É uma obra unificada de grande profundidade, ao mesmo tempo, básica e sofisticada, sombria e luminosa, tangível e ilusória, única e, ainda assim universal” (Marfil).



Paraíso Infernal

17 Paraíso Infernal
(Only Angels Have Wings)
Howard Hawks, 1939
200 pontos
10 votos
1 pole



“Um milagre acontece em Paraíso Infernal. Temos Cary Grant e Jean Arthur como o par romântico. Temos uma ilha e uma pequena companhia de aviação, o mau tempo e o interesse mútuo entre duas pessoas. Até aí tudo bem. O milagre é que por mais que se observe a direção de Howard Hawks, num dos momentos mais inspirados de sua brilhante carreira, nunca saberemos em que medida ele realiza o feito de juntar vários ingredientes que desaparecem numa mistura perfeita de aventura e romance. Hawks, como Ford e Walsh, tinha a incrível habilidade de apresentar todos os trunfos num tom certo e fazer com que eles permaneçam invisíveis. O que vemos é o resultado, mas não chegamos nem perto de identificar o caminho. É a arte de contar uma história por intermédio de uma câmera, de deslocar os atores no espaço e realizar cortes invisíveis. Arte a que poucos tem acesso” (Sergio Alpendre, Chip Hazard).



Frank Capra

18 A Mulher Faz o Homem
(Mr. Smith Goes to Washington)
Frank Capra, 1939
198 pontos
9 votos
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“Obsessão e decepção andam lado a lado neste clássico absoluto de Frank Capra. Obsessão que é fruto de uma paixão irrefutável de um homem (in)comum pelos ideais de justiça, integridade e liberdade que a Constituição de seu país preconiza. O little man de Capra, encarnado pela segunda vez na figura de James Stewart, assume o cargo de senador em Washington apenas para fazer número e contar voto na bancada de seu partido. É ao “sair do túnel” que sua vertigem de admiração por seus presidentes e sua plena crença na bondade inerente ao ser humano sofrem um baque diante da corrupção que move o sistema político. Seguindo no sentido contrário do Willie Stark de A Grande Ilusão (outro clássico que aborda os mesmos temas), Jefferson Smith inicia a batalha do verdadeiro representante do povo contra a máquina de interesses, resultando num dos momentos de redenção fundamentais do cinema deste autor americano. E Capra se delicia na direção, com um senso bem racional de enquadramento, tendo em Stewart o intérprete perfeito de sua convicção na dignidade do homem. Setenta anos desde seu lançamento, A Mulher Faz o Homem ainda é relevante. Um filme político, mas, sobretudo, um filme de caráter” (Renato Silveira).



Alfred Hitchcock

19 Os 39 Degraus
(The 39 Steps)
Alfred Hitchcock, 1935
184 pontos
10 votos
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“Hitchcock ainda não era o ‘mestre do suspense’ quando este filme foi lançado. Mas Os 39 Degraus, sua primeira obra-prima e o melhor de sua fase inglesa, estabeleceu as bases para triunfos futuros: é o pai de Intriga Internacional, Sabotador e outros clássicos do gênero de espionagem, repletos de peripécias e humor, nos quais um homem comum é envolvido em uma trama complexa e precisa se desdobrar para provar sua inocência. Outras características dos filmes mais divertidos do cineasta surgem aqui: o malfadado protagonista dependerá da ajuda de estranhos que, sob as circunstâncias, fazem a coisa certa ao fazer algo que aparentemente não deveriam (ou seja, o que é ético não é necessariamente o que é socialmente aceitável); o vilão não apenas se assemelha muito pouco ao que na vida real tomamos por um marginal, mas é um membro “respeitável” da sociedade; temos o artifício do McGuffin, extremamente engenhoso, que dá razão de ser a um dos mais interessantes personagens da filmografia do diretor, Mr. Memory; e o final, apoteótico, ocorre em um local público extremamente famoso. Em 1935, Hitchcock ainda não era mestre _mas lançou seu primeiro filme digno de mestre” (Marcelo V., Cinema Cuspido e Escarrado).



FW Murnau

20 Tabu
(Tabu)
F. W. Murnau e Robert J. Flaherty, 1931
152 pontos
7 votos
sem poles



“Iniciado com a colaboração de Robert J. Flaherty (Nanook, o Esquimó, A História de Louisiana…), as divergências entre o critério documentarista deste e o sentido dramático de Murnau fizeram com que Flaherty abandonasse as filmagens. Apesar disso, no entanto, no filme aparecem magnificamente fundidos o realismo documental (cenas ambientais, danças, etc) e o subjetivismo criador do autor de Nosferatu, para o qual a natureza e as paisagens são um expressivo décor em que insere um poema trágico de amor na fábula de um casal de jovens indígenas da ilha de Bora-Bora apaixonado e feliz. Mas o Grande Sacerdote vem a escolher a mulher para ser consagrada aos deuses, e, portanto, declarada tabu em relação aos homens. O homem, porém, não aceita tal destino e rapta a amada para viver numa ilha distante. O Grande Sacerdote descobre o paradeiro do casal e se apodera da jovem, mas o amante, desesperado, trata de seguir a nado a barca que a conduz. Extenuado, morre no mar. Tabu praticamente não tem diálogos. A expressão se dá pela imagem e pela música. O tema desta obra-prima é o da inútil luta do homem contra a fatalidade do destino. Filme de extraordinária beleza formal e expepcional qualidade poética, é considerado um dos pontos altos da expressão lírica cinematográfica” (André Setaro).