RANKING DOS ANOS 40

Cidadão Kane

1 Cidadão Kane
Citizen Kane, Orson Welles, 1941
863 pontos – 31 votos – 9 poles

“Ponto de partida da linguagem do cinema moderno, e fortemente influenciado pela plástica da imagem do expressionismo alemão, a revolução proposta por Welles se encontra na pulverização da estrutura narrativa, que assume a feição de um puzzle com uma sucessão de pontos de vistas. Construído sobre um procedimento de investigação, no qual se busca uma pista falsa, o significado de Rosebud, o filme é, na verdade, sobre a impossibilidade de se adentrar na personalidade de um homem esfuziante e contraditório. Ou, como disse o historiador francês Georges Sadoul, o retrato do artista por ele mesmo. Baseado livremente na trajetória do magnata da imprensa William Randolph Hearst, Cidadão Kane tem a sua expressão maior na maneira pela qual o realizador efetua a sua narração. A iluminação de Gregg Toland contribui muito para o estabelecimento da mise-en-scène singular e original. Curiosamente o seu lançamento, antes dos Estados Unidos, se dá no Brasil em 16 de junho de 1941. Trata-se de uma obra-prima absoluta que permanece atual até os dias de hoje” (Andre Setaro, do Setaro’s Blog).

As Vinhas da Ira

2 As Vinhas da Ira
The Grapes of Wrath, John Ford, 1940
606 pontos – 26 votos – sem poles

“Podemos (e devemos) falar nos extraordinários conseguimentos cinematográficos desta obra-prima, desde a notável fotografia em tom documental de Gregg Toland (que no ano seguinte fotografaria Cidadão Kane), até ao admirável e muito fordiano ensemble de atores, liderado pelos grandes Henry Fonda, John Carradine e Jane Darwell. Mas, claro, o que nos marca a cada visão desta jornada da família Joad entre o Oklahoma natal e a Califórnia prometida, na América da Grande Depressão, é o seu profundo alcance moral e social. Que este comovente hino ao povo comum, oprimido pelos kafkianos interesses dos bancos e das grandes corporações sem cara, nos seja dado por um nada engagée “fazedor de westerns” (como se auto-intitulava), não deixa de ser surpreendente, mas a verdade é que dificilmente nos ocorreria um realizador que se identificasse tão intimamente com estes homens e mulheres, como esse peculiaríssimo grande artista americano chamado John Ford” (Harry Maddox, Duelo ao Sol).

Casablanca

3 Casablanca
Casablanca, Michael Curtiz, 1942
562 pontos – 22 votos – 4 poles

“Considerado por muitos como o melhor filme de todos os tempos, Casablanca, ainda que talvez não mereça tal título, parece ser a definição perfeita para o termo “clássico”. É impossível não pensar no filme de Michael Curtiz quandro se trata de clássicos do cinema, especialmente se falarmos do cinema hollywoodiano. Todos os elementos do filme ou alcançam ou chegam muito próximos da perfeição: da inesquecível canção “As time goes by”, passando pelo elenco impecável – onde Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid e Claude Rains criam alguns dos personagens mais marcantes da história do cinema – e pelo clima de tensão gerado pelo contexto da Segunda Guerra Mundial – no qual a história se passa e o filme foi produzido – até chegar a uma das maiores e mais belas histórias de amor que o cinema já contou. Curtiz, Bogart e Bergman fazem da impossibilidade do amor de Rick e Ilsa a força motriz de Casablanca e a maior responsável pela beleza de sua história. História de um amor imortal, tal qual o filme de Curtiz” (Wallace Guedes, Crônicas Cinéfilas).

Pacto de Sangue

4 Pacto de Sangue
Double Idemnity, Billy Wilder, 1944
526 pontos – 22 votos – 2 poles

“Era uma tarde de segunda-feira, estava tomando um café com Analdo, quando ele me veio com a seguinte pergunta: “o que é cinema noir?”. Eu não disse uma palavra, sabia que não seria preciso, apenas peguei o dvd de Pacto de Sangue que estava em minha mochila e emprestei a ele. “Assista isso e você entenderá, amigão”, pensei comigo mesmo. No outro dia nos encontramos novamente, Analdo era só elogios ao filme, me falou de como ficara boquiaberto com as atuações, a fotografia, o roteiro e especialmente a maestria com a qual Billy Wilder dirigia tudo. “E eu achava que ele só fazia comédias…”, disse. “Wilder é um mestre, um diretor completo”, eu respondi e comecei a rir da situação. Logo depois disse que tinha um outro filme para emprestar a ele, e tirei da minha mochila o dvd de Crepúsculo dos Deuses. Essa é a história de como Analdo entendeu o que era cinema noir” (Christopher Faust, Christophilmes).

Ladrões de Bicicletas

5 Ladrões de Bicicletas
Ladri di Biciclette, Vittorio De Sica, 1948
484 pontos – 21 votos – 1 pole

“Não é difícil entender porque Ladrões de Bicicleta conseguiu resistir tão bem ao tempo. É um filme muito simples, quase universal e com uma força surpreendente que melhora a cada revisão. Difícil é não ficar vidrado na poesia urbana realista que Vittorio de Sica imprime em cada seqüência; ou no naturalismo das encenações de atores amadores recriando seus cotidianos, suas próprias vidas, principalmente em uma cena como a que Ricci, em pleno desespero por não encontrar sua bicicleta roubada, decide levar seu filho para um restaurante. Há tanto vigor nesses momentos tão simples… Também é interressante notar o contraste do glamour hollywoodiano com o mundo neo-realista representado nas cenas onde Ricci cola cartazes de filmes americanos com enormes retratos de Rita Hayworth. E por enquanto chega, pois se eu entrar no final, é capaz de chorar como acontece toda vez que eu vejo o filme. O espaço é curto, e poderia ficar citando várias cenas e momentos devastadores de Ladrões de Bicicleta, mas acho que já foi o suficiente pra declarar minha admiração pelo filme”.

Desencanto

6 Desencanto
Brief Encounter, David Lean, 1945
472 pontos – 22 votos – sem poles

“O amor romântico, o amor impossível, o amor súbito, o amor. David Lean é o responsável pelo filme de amor mais maduro de todos os tempos, que começa com um encontro numa estação de trem e dura o exato tempo de um sonho, aquele que pode ser rápido e nunca mais voltar ou que pode virar um martelo na memória. Desencanto, pra mim, foi refilmado como As Pontes de Madison, por Clint Eastwood, e virou música, Qui Nem Jiló, na voz de Luiz Gonzaga. Desencanto é refletido o tempo inteiro porque sua força-motriz é a mesma da vida. É um filme tão pequeno, mas tão imenso que chega a ser assustador. É um filme que precisa de tão pouco para dizer tudo tão completamente que não pode ser resumido numa frase, num parágrafo ou num livro de muitas páginas” (Chico Fireman, Filmes do Chico).

Festim Diabólico

7 Festim Diabólico
Rope, Alfred Hitchcock, 1948
438 pontos – 22 votos – 1 pole

“Foi durante muito tempo o meu Hitchcock favorito. Depois foi caindo um pouco de posição, mas ainda hoje é um dos trabalhos do cineasta que mais aprecio. Lembro da primeira vez que o vi, numa Sessão de Gala, e meu coração pulsava acelerado de uma maneira que nenhum outro filme então chegara a provocar. É um de seus trabalhos mais experimentais e que logo depois o próprio mestre do suspense diz não ter gostado – a experiência do uso do plano-seqüência contínuo. Foi também o primeiro trabalho em cores de Hitchcock e não há ainda um uso bem elaborado da cor. Mas talvez por isso mesmo o filme seja tão eficiente: por chamar a atenção apenas ao básico, isto é, ao suspense gerado por aquele corpo morto dentro de um baú que serve de mesa para uma festa. Em Festim Diabólico, somos pegos mais uma vez pela teia de Hitchcock e tememos pela descoberta do ato maligno daqueles dois jovens. Talvez os filmes de Hitchcock sejam a materialização de nossas culpas, e encontrem em Festim Diabólico um de seus maiores representantes” (Ailton Monteiro, Diário de um Cinéfilo).

A Felicidade Não se Compra

8 A Felicidade Não se Compra
It’s a Wonderful Life, Frank Capra, 1946
420 pontos – 17 votos – 1 pole

“Em 2009, A Felicidade Não se Compra completará 62 anos. Tempos depois, a angústia de George Bailey continua tão atual que ainda esperamos a chegada de Clarence para nos levar à redenção. O melhor filme de Frank Capra surgiu num cenário pós-guerra, do mundo ainda coberto pela nuvem de uma época de conflitos – o protagonista James Stewart quase não embarcou no projeto porque os traumas do campo de batalha ainda estavam presentes no ex-soldado. O astro se rendeu quando teve contato com seu personagem, um homem bondoso que decide pôr fim à sua vida e recebe a visita de um anjo marginal. Capra nunca foi um diretor de grandes arroubos técnicos, mas era mestre em contar histórias e mostrar para a platéia o lado positivista de se viver. Ele representa, para o espectador, um Clarence em celulóide que nos atenta para uma realidade fixada no próprio título original: que a vida pode ser maravilhosa” (Burg, Pipoqueira).

O Grande Ditador

9 O Grande Ditador
The Great Dictator, Charles Chaplin, 1940
375 pontos – 17 votos – sem poles

“Chaplin sempre foi um gênio criador de imagens que perduram no imaginário de qualquer pessoa, seja ela cinéfila ou não. De todos os seus filmes, O Grande Ditador talvez seja aquele que mais possua “cenas famosas”, que praticamente criaram uma vida própria fora do roteiro, existindo isoladamente. A briga para ver quem fica numa posição mais alta na cadeira de barbeiro. O discurso absolutamente hilariante do ditador hitleriano. O sublime balé com o globo terrestre. E quando você já se deu por satisfeito com imagens tão inesquecíveis, o mestre ainda surpreende com suas palavras – desta vez não para serem lidas na tela, mas, sim, ouvidas e gravadas na história do cinema como o momento em que criador e criatura se confundem em seus papéis: aquele é Chaplin? Ou aquele é o tão querido “Little Tramp” falando pela primeira e última vez? Um filme com uma mensagem, sim. E uma mensagem que nunca deixou de ser atual e bela” (Renato Silveira, Cinematório).

Rio Vermelho

10 Rio Vermelho
Red River, Howard Hawks, 1948
360 pontos – 15 votos – 2 poles

“Existe um pedestal imaginário onde certos filmes estacionam e do qual simplesmente não é possível removê-los. Muitos clássicos até chegam a passar por ele, mas não resistem ao tempo. Outros permanecem imóveis, não importa que passem 40 ou 50 anos. Rio Vermelho está estacionado nesse pedestal há 60 anos, e não há jeito de fazê-lo descer. Se a história americana passa pela conquista do Oeste, uma terra desbravada, selvagem e regida pela lei do mais forte, foi feita também pelos vaqueiros, pelas grandes criações de gado e pela brutalidade das relações entre esses homens. A obra-prima de Howard Hawks não é somente um exemplar magnífico de porque os críticos da Cahiers du Cinema valorizavam tanto o gênero – pregando que havia mais do que mocinhos, bandidos, índios e duelos por trás da cortina de poeira e fumaça que os simbolizava. É uma tour-de-force por alguns substantivos do gênero, cruzando por ataques de índios a comboios, passando por duelos e as impressionantes cenas de 10 mil cabeças de gado sendo conduzidas ao som de uma trilha que é a própria definição do gênero, do tema de Tiomkin aos temas folclóricos da ocupação americana. Kael chamou o filme de “ópera a cavalo”. Apropriado: o compositor é Hawks, mas a estória foi escrita ao longo dos anos por poeira e balas” (Rockenback, de Cinema – O Século da Luz).

11 Roma, Cidade Aberta
Roma, Città Aperta, Robert Rossellini, 1945
338 pontos – 17 votos – sem poles

“Rossellini não tinha dinheiro, status ou apoio algum quando decidiu fazer esse filme. Convocou um elenco quase que todo formado por amadores, as tomadas externas eram realizadas nas ruas de uma Itália em destroços após a guerra e até mesmo os rolos em que o filme foi rodado eram doados ou conseguidos por vias ilegais. Mas acima disso tudo prevaleceu a vontade de um homem de fazer cinema. E um cinema que ainda não existia e nascia da necessidade de se expressar em meio a um cenário calamitoso, o que acabou por influenciar toda a estética que Roma, Cidade Aberta apresentou: a humanidade tendo que conviver com a sua realidade. Uma realidade cruel contada por alguém que a viveu e sofreu. Mas mesmo com todos esses impecilhos, Roma, Cidade Aberta constitui um dos momentos mais impressionantes do cinema e, para muitos, o principal marco do neo-realismo italiano” (Daniel Pilon, Pilog).

12 O Tesouro de Sierra Madre
The Treasure of the Sierra Madre, John Huston, 1948
337 pontos – 15 votos – 1 pole

“Pegue uma picareta e acompanhe mais uma trama de ganância desenfreada na carreira de John Huston (assim como O Falcão Maltês, O Segredo das Jóias e O Homem que Queria Ser Rei). Nela você vai aprender que o Walter Huston banguela sabia tudo desse negócio de mineração, que Tim Holt era mais que um ator de westerns B e que Humphrey Bogart nem sempre era “cool” e friamente romântico como em Casablanca e tantos filmes noir. Vai aprender também que às vezes água vale mais que ouro, que é difícil uma amizade resistir quando há muito dinheiro envolvido e que um Alfonso Bedoya da vida não precisa lhe mostrar nenhum “stinking badges” pra te tirar o que você suou tanto para conquistar. E, finalmente, vai compreender com quantas gramas se faz um filmaço que vale seu peso em ouro” (Marcelo Rennó, Movieland).

13 Relíquia Macabra/O Falcão Maltês
The Maltese Falcon, John Huston, 1941
307 pontos – 17 votos – sem poles

“Estreando na direção, John Huston não poderia ser mais bem sucedido. Relíquia Macabra é um noir típico, com loira fatal, assassino sanguinário e chefe de organização, mas ao mesmo tempo foge pela tangente graças a caracterização de seu personagem principal. Sam Spade (Humphrey Bogart) representa uma auto-suficiência rara em detetives de thrillers noir. Sendo a personificação da lei imaculada em cada gesto e superioridade nos confrontos diretos com os outros personagens. Em trama, em reviravolta e em mistério, a busca pelo Falcão Maltês é um clássico, não apenas do gênero, e sim, de toda a sétima arte” (Pips, Última Sessão).

14 O Terceiro Homem
The Third Man, Carol Reed, 1949
263 pontos – 13 votos – sem poles

“Paulo Francis remarcou, em texto memorável, que a belíssima cena final de O Terceiro Homem é muito mais que uma subversão dos finais hollywoodianos. Afinal, vemos a mocinha (Alida Valli) aproximar-se do “herói” (Joseph Cotten), passar por ele, e continuar sua caminhada. Tamanha esnobada tinha um motivo, romântico no sentido masculino-feminino e também no sentido mais amplo; o herói não derrotou o vilão, mas o delatou, e delação alguma merece prêmio. Recheado de cenas (a perseguição nos esgotos é uma delas) e frases (como a piada sobre o relógio suíço) memoráveis, O Terceiro Homem é um filme de Carol Reed cercado de Orson Welles por todos os lados – que por sinal, ao contrário do que Francis também afirmou, está em uma das suas mais impressionantes aparições. Como nos melhores Welles, O Terceiro Homem é um divertido filme sério. Muito e muito” (Milton do Prado, O Olho de Hochelaga).

15 Laura
Laura, Otto Preminger, 1944
261 pontos – 13 votos – sem poles

Laura é provavelmente o filme mais emblemático de Otto Preminger e, ao mesmo tempo, um dos film noirs mais densos que o cinema norte-americano nos deu. Veja-se o significado da figura de Laura (Gene Tierney), a mulher enigmática de que todos falam na primeira parte do filme e que o detetive McPherson (Dana Andrews) transformou numa fantasia sexual – que se constrói a partir do olhos (que contemplam o seu retrato) e das mãos (que mexem na sua roupa interior). Laura é um filme sobre o desejo de possuir uma imagem e, por isso mesmo, uma das mais belas metáforas dedicadas ao Cinema, a arte onde a morte (de um instante) e o desejo (o de tocar e entrar nele com as mãos) se confundem. Ora, como em qualquer fantasia, o cinema vive da sua própria ilusão, tal como o amor de McPherson apenas existe enquanto Laura for uma imagem num quadro, a representação de alguém que já morreu e não volta mais. Quando a Laura de carne e osso lhe aparece, a história deste amor necrófilo como que cede ao thriller policial. Faz todo o sentido esta inflexão, porque um amor tão íntimo, quase inconfessável, não podia de modo algum sobreviver à sua própria realização. Até parece que Fritz Lang (Retrato de uma Mulher) e Alfred Hitchcock (Um Corpo que Cai) vieram beber aqui” (Luís Mendonça, Cinedrio).

16 Monsieur Verdoux
Monsieur Verdoux, Charles Chaplin, 1947
236 pontos – 11 votos – sem poles

“A obra-prima maldita do mais popular dos cineastas. Um Charles Chaplin diferente do restante de sua carreira (talvez em seu melhor filme), em que ousa rimar comédia com assassinatos, onde o sentimentalismo do gênio deu lugar ao cinismo e à amargura. A moral burguesa não podia ser mais fonte de humor no sentido usual, num mundo que saía de uma guerra onde o Holocausto predominou e a bomba atômica foi o capitulo final. O roteiro contesta o “direito” de matar, o ponto onde o certo e o errado emergem de fatos absolutamente iguais na sua essência. Verdoux enxerga como ninguém a praticidade das regras sociais e a hipocrisia ostensiva a sua volta, onde inocentes são sacrificados sem peso na consciência, enquanto que os donos do poder cobram um preço aos que executam os seus pares. As atribulações de Verdoux para manter suas identidades distintas, eliminar suas vitimas e investir-lhes a fortuna rendem uma dinâmica memorável. O tema foi soprado ao ator-diretor por Orson Welles (creditado), que declarou que vendera a idéia a Chaplin por acreditar que era o único ator vivo capaz de fazer o papel” (Vlademir Lazo, O Olhar Implícito).

17 Rebecca, a Mulher Inesquecível
Rebecca, Alfred Hitchcock, 1940
206 pontos – 10 votos – sem poles

“Impossível esquecer Rebecca. Esquecer a sua reverberante ausência. A sua opressiva onipresença. A sua influência sobre as pessoas, capaz de fazer aflorar particularidades que se chocam enquanto serpenteiam por uma Manderley surreal: a insegurança e a fragilidade de Joan, o tormento e os segredos de Laurence, a lealdade de Reginald, a canalhice de George, a deliciosa vilania de Judith, fruto de uma curiosa e obtusa fixação por Rebecca… e, finalmente, a genialidade de Alfred, que surge quase atípica, deveras onírica, por vezes sobrenatural, feita de travellings ousados, fotografia primorosa, montagem soberba e direção irretocável. Impossível esquecer Rebecca. Impossível esquecer a sua capacidade de ser tão somente o que ouvimos falar… e o que imaginamos… e o que vimos… se é que realmente vimos algo ali, naquelas janelas, naqueles corredores, naquele filme inesquecível…” (William Wilson, MegaZona).

18 Pai e Filha
Bashun, Yasujiro Ozu, 1949
179 pontos – 8 votos – sem poles

“A ambigüidade de um sorriso, a tristeza de um olhar, o sono que impede ouvir o desabafo emocionado do outro. Basta um único plano com os seres que habitam a cinematografia de Ozu para perceber a profundidade alcançada pelo mesmo quanto ao retrato de relações humanas. Se quando mostra a natureza consegue cenas das mais lindas, é quando coloca seus personagens em contato que Ozu ultrapassa a beleza do seu estilo estético (que, sim, merece muitas análises dos recursos técnicos empregados) para chegar a um nível emocional intensamente íntimo e honesto. Aqui, a história de uma filha que não quer casar para não se separar do seu querido pai é um pretexto para Ozu estabelecer a dicotomia entre o tradicional e a modernidade. Entre o velho e o novo. Entre o passado e o futuro: o passeio lúdico de bicicleta leva a um inevitável caminho de “beba Coca-Cola”. Ao mesmo tempo pode também ser visto apenas como a contemplação de pessoas e de suas interações com elas e com o mundo que as cerca. Um filme sobre um pai que descasca uma maçã como se fosse pela primeira vez” (Rudá Lemos, Do Desastre ao Triunfo).

19 Interlúdio
Notorious, Alfred Hitchcok, 1946
175 pontos – 9 votos – sem poles

“No tempo da guerra que mais marcou o século XX, Interlúdio insere no gênero de espionagem dois conflitos fundamentais: o triângulo amoroso e o dilema de ter de escolher entre o amor e o dever. E esta encruzilhada não é colocada diante de um protagonista, mas vivida intensamente por todas as pontas deste formidável triângulo escaleno. Para complicar, a atormentada Ingrid Bergman tem de lidar com os preconteitos do machista e orgulhoso Cary Grant. Mas é na personagem de Claude Rains que o grande drama está centrado. Hitchcock dizia que quanto melhor o vilão, melhor o filme; Rains é o mais humano e, portanto, o mais trágico dentre todos os seus vilões. Apenas em Um Corpo que Cai o diretor chegou perto de criar um plano final tão impactante e aterrador como o de Interlúdio” (Marcelo V., de Cinema Cuspido e Escarrado).

20 Paixão dos Fortes
My Darling Clementine, John Ford, 1946
174 pontos – 7 votos – 1 pole

É mais ou menos como acontece com Rastros de Ódio e com outros westerns de John Ford: Paixão dos Fortes transcende esse gênero, vai além de rótulos, explorando mitos do oeste norte-americano (no caso, a lenda de Wyatt Earp) ao mesmo tempo em que foge de qualquer tipo de simplificação; é, acima de tudo, sobre as relações humanas (o tema favorito de Ford). Extrai da simplicidade cenas de beleza extrema: Earp dançando com Clementine, nos mostrando não aquela figura convencional do herói, mas o homem que intimidasse frente a mulher que ama. O melhor de tudo é que o que parece realmente importar nessa sequencia são os poucos minutos que dura a trajetória silenciosa dos dois até a inauguração da Igreja. É pouco tempo, mas parece resumir toda a força que o Cinema pode exercer. É de momentos como esse que os grandes filmes são feitos (e que fazem de John Ford um de nossos maiores cineastas)” (Rodrigo Pierre, Total Trash).

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